Nos estratos menos visíveis do poder, onde as decisões antecedem o discurso e a palavra pública costuma chegar atrasada, o recado passou a circular sem adjetivos e sem disfarces. Partidos de centro-direita iniciaram um movimento para afastar Flávio Bolsonaro da disputa presidencial. Não há nisso divergência doutrinária. O que orienta a manobra é a aritmética eleitoral mais elementar. A rejeição do senador é lida como um passivo estrutural, incapaz de sobreviver à prova decisiva de um segundo turno.
PSD e União Brasil verbalizam esse incômodo com franqueza crescente. Para essas siglas, apoiar o filho do ex-presidente significaria incorporar um problema pronto, com custo conhecido e prazo de validade curto. Diante disso, preferem o risco controlado da fragmentação ao ônus previsível de uma candidatura marcada por rejeição elevada. Na política, como na economia real, ativos deteriorados tendem a contaminar todo o portfólio.
No PL, a resposta segue outra lógica. A reação veio no tom de quem recusa o papel de figurante em um enredo alheio. Um dirigente do partido confidenciou que o bolsonarismo precisa demonstrar vitalidade, não resignação. A mensagem foi levada a Valdemar Costa Neto com objetividade quase castrense: Damares Alves, eleita com mais de 700 mil votos, como vice na chapa de Flávio Bolsonaro.
A escolha tem racionalidade política. Eleita pelo Distrito Federal com votação expressiva, Damares carrega o peso institucional da capital da República. Brasília não se comporta como colégio eleitoral secundário. É o centro nervoso do Estado, onde poder político, burocracia e opinião pública se cruzam de forma permanente. Quem vence ali fala de dentro do sistema e projeta a voz para além dele. Sua presença na chapa busca densidade, legitimidade institucional e comunicação direta com um eleitorado conservador que ainda se orienta por referências políticas consolidadas.
A estratégia não é nova. Trata-se de um expediente clássico da política nacional: consolidar o núcleo fiel, transmitir sensação de coesão e preservar a liderança de Jair Bolsonaro. O obstáculo, porém, permanece fora desse círculo. O centro-direita já não se move por vínculos afetivos nem por lealdades históricas. Opera por cálculo, avaliação de risco e custo-benefício.
É nesse ponto que a equação se fecha. Na política, rejeição elevada não é traço de estilo nem ruído de campanha. É passivo concreto, mensurável e potencialmente fatal. Poucos estão dispostos a atravessar uma eleição presidencial carregando um peso que compromete a travessia antes mesmo da largada.
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Ronaldo Nóbrega é jornalista e memorialista, com quase três décadas de atuação na imprensa e na análise institucional. Aos 16 anos, emancipou-se para ingressar no mercado de comunicação, iniciando sua trajetória no jornal A Hora, no Nordeste. Em Brasília, atuou como consulente no Tribunal Superior Eleitoral por 12 anos. Em 2005, teve papel de destaque na Consulta nº 1.185, que contestou a Regra da Verticalização e resultou na Emenda Constitucional nº 52/2006, marco que consolidou a autonomia partidária no Brasil.

