A Prefeitura do Jaboatão dos Guararapes/PE resolveu falar. E quando o poder público fala, especialmente depois que o lixo fala primeiro, convém ouvir com atenção redobrada.
Segundo nota oficial, a gestão municipal tomou conhecimento da denúncia sobre o descarte de materiais com a logomarca do município encontrados em uma área de lixo. Não era pouca coisa nem irrelevante. Camisas de uniforme escolar, estojos, réguas, esquadros e até peças elétricas de ventiladores. Um inventário pedagógico da negligência, espalhado onde não deveria estar.
Veio então a explicação clássica. Após apuração preliminar, constatou-se que o descarte foi indevido por erro humano. Sempre ele. O erro humano é a entidade mais resiliente da administração pública brasileira. Sobrevive a governos, atravessa gestões e nunca responde processo sozinho.
A Prefeitura informou ter determinado a abertura de procedimento interno para apurar responsabilidades, instaurar processo administrativo e revisar protocolos de descarte e controle de materiais. Em linguagem menos burocrática, promete investigar, punir se for o caso e ajustar regras. É o mínimo esperado quando patrimônio público vira resíduo urbano.
A nota termina reafirmando compromissos conhecidos. Transparência, correta aplicação dos recursos públicos e responsabilidade na administração do patrimônio municipal. Conceitos sólidos, embora frequentemente mais bem preservados no papel do que na prática.
O episódio não é apenas um tropeço operacional. É um lembrete incômodo de como a distância entre a compra pública e o destino final dos bens ainda é um território nebuloso. Uniforme escolar não é papel descartável. Material didático não é entulho. Quando aparece no lixo, o problema deixa de ser apenas logístico e passa a expor, de forma clara, falhas mais profundas na gestão do patrimônio público.
Resta saber se, desta vez, o erro humano deixará de ser apenas um álibi elegante e passará a ter nome, sobrenome e consequência administrativa. Porque, no setor público, a verdadeira transparência começa quando o lixo deixa de ser o destino final das explicações.
Confira a nota na íntegra:
NOTA DA PREFEITURA DO JABOATÃO DOS GUARARAPES
A Prefeitura do Jaboatão dos Guararapes informa que tomou conhecimento da denúncia sobre o descarte de materiais com a logomarca do município encontrados em área de lixo, incluindo camisas de uniforme escolar, estojos, réguas, esquadros e peças elétricas para ventiladores.
Após apuração preliminar, foi constatado foram descarta indevidamente, por erro humano. A Prefeitura determinou a abertura de procedimento interno para apurar responsabilidades, adotar medidas cabíveis, com abertura de um processo administrativo e revisar os protocolos de descarte e controle de materiais, a fim de evitar que situações semelhantes voltem a ocorrer.
A gestão municipal reafirma seu compromisso com a transparência, a correta aplicação dos recursos públicos e a responsabilidade na administração do patrimônio do município.
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Ronaldo Nóbrega é jornalista e memorialista, com quase três décadas de atuação na imprensa e na análise institucional. Aos 16 anos, emancipou-se para ingressar no mercado de comunicação, iniciando sua trajetória no jornal A Hora, no Nordeste. Em Brasília, atuou como consulente no Tribunal Superior Eleitoral por 12 anos. Em 2005, teve papel de destaque na Consulta nº 1.185, que contestou a Regra da Verticalização e resultou na Emenda Constitucional nº 52/2006, marco que consolidou a autonomia partidária no Brasil.

