Coluna Política

Eleições presidenciais: PSD joga no silêncio

Ronaldo Nóbrega  -   16 de janeiro de 2026

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O PSD resolveu agir como quem conhece o tamanho do próprio peso. Longe do barulho e perto do cálculo, a legenda passou a tratar a eleição de 2026 como disputa real de poder, não como exercício retórico. Nesse movimento, o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), deixou claro que não pretende ser figurante da história.

Ratinho não se lançou. Não precisava. Disse apenas que aceita disputar a Presidência se o partido assim decidir. É uma frase curta, contudo, carregada de método. Na política, quem aceita sem se oferecer costuma estar melhor posicionado do que quem se oferece sem ser chamado. O governador fez questão de sublinhar que nome, sozinho, não resolve eleição. O que importa é projeto. E projeto exige base, tempo e musculatura política.

As conversas recentes com Gilberto Kassab não foram protocolares. Kassab não desperdiça agenda. O PSD discute se terá candidatura própria e, mais importante, se terá estrutura para sustentá-la até o fim. Ao sinalizar que esfria um apoio automático a Flávio Bolsonaro no primeiro turno, Kassab abriu espaço para algo que o partido não fazia há anos. Pensar grande sem pedir autorização.

O cenário externo ajuda. A entrada de Flávio reorganiza a direita e concentra o eleitorado bolsonarista. Onde ele cresce, outros encolhem. A viabilidade de Tarcísio de Freitas perde tração, não por fragilidade própria, mas por excesso de concorrentes no mesmo campo. A direita se divide enquanto insiste em parecer unificada.

As pesquisas começam a refletir esse rearranjo silencioso. Flávio cresce onde Tarcísio desaparece. E o PSD observa. Com paciência. Com cálculo. Como quem sabe que eleição presidencial não se ganha no grito, no entanto, na estrutura. E estrutura começa pelo maior número possível de candidatos a governador, palanques regionais sólidos e presença nacional contínua. Nesse quesito, o PSD vem fazendo o dever de casa desde o início de 2025.

Ratinho Jr. surge nesse tabuleiro como um nome de transição. Não inflama massas, todavia, atravessa cenários. Não vive de slogan, porém, de gestão. Conversa com o centro, não assusta o mercado e não repele alianças. É o tipo de candidato que cresce à medida que os extremos se engalfinham. 

Sabemos, leitor, que política não é exercício de retórica nem disputa de gritos. É, sobretudo, ocupação de espaços que os outros negligenciam. O PSD parece ter compreendido que há um vazio crescente entre o ruído ideológico permanente e o cansaço evidente do eleitor. Um espaço silencioso, entretanto, decisivo.

Se for escolhido, Ratinho Júnior entra exatamente nesse território. Não como produto de ocasião, ainda assim, como construção planejada. Poder, nesse caso, não nasce do improviso nem do impulso. Consolida-se com tempo, método e, acima de tudo, estrutura. É aí que a eleição começa.

redacao@colunapolitica.com.br

Ronaldo Nóbrega é jornalista e memorialista, com quase três décadas de atuação na imprensa e na análise institucional. Aos 16 anos, emancipou-se para ingressar no mercado de comunicação, iniciando sua trajetória no jornal A Hora, no Nordeste. Em Brasília, atuou como consulente no Tribunal Superior Eleitoral por 12 anos. Em 2005, teve papel de destaque na Consulta nº 1.185, que contestou a Regra da Verticalização e resultou na Emenda Constitucional nº 52/2006, marco que consolidou a autonomia partidária no Brasil.

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