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Coluna Política

PL estuda Damares como resposta à pressão sobre Flávio

Ronaldo Nóbrega  -   17 de janeiro de 2026

Nos estratos menos visíveis do poder, onde as decisões antecedem o discurso e a palavra pública costuma chegar atrasada, o recado passou a circular sem adjetivos e sem disfarces. Partidos de centro-direita iniciaram um movimento para afastar Flávio Bolsonaro da disputa presidencial. Não há nisso divergência doutrinária. O que orienta a manobra é a aritmética eleitoral mais elementar. A rejeição do senador é lida como um passivo estrutural, incapaz de sobreviver à prova decisiva de um segundo turno.

PSD e União Brasil verbalizam esse incômodo com franqueza crescente. Para essas siglas, apoiar o filho do ex-presidente significaria incorporar um problema pronto, com custo conhecido e prazo de validade curto. Diante disso, preferem o risco controlado da fragmentação ao ônus previsível de uma candidatura marcada por rejeição elevada. Na política, como na economia real, ativos deteriorados tendem a contaminar todo o portfólio.

No PL, a resposta segue outra lógica. A reação veio no tom de quem recusa o papel de figurante em um enredo alheio. Um dirigente do partido confidenciou que o bolsonarismo precisa demonstrar vitalidade, não resignação. A mensagem foi levada a Valdemar Costa Neto com objetividade quase castrense: Damares Alves, eleita com mais de 700 mil votos, como vice na chapa de Flávio Bolsonaro.

A escolha tem racionalidade política. Eleita pelo Distrito Federal com votação expressiva, Damares carrega o peso institucional da capital da República. Brasília não se comporta como colégio eleitoral secundário. É o centro nervoso do Estado, onde poder político, burocracia e opinião pública se cruzam de forma permanente. Quem vence ali fala de dentro do sistema e projeta a voz para além dele. Sua presença na chapa busca densidade, legitimidade institucional e comunicação direta com um eleitorado conservador que ainda se orienta por referências políticas consolidadas.

A estratégia não é nova. Trata-se de um expediente clássico da política nacional: consolidar o núcleo fiel, transmitir sensação de coesão e preservar a liderança de Jair Bolsonaro. O obstáculo, porém, permanece fora desse círculo. O centro-direita já não se move por vínculos afetivos nem por lealdades históricas. Opera por cálculo, avaliação de risco e custo-benefício.

É nesse ponto que a equação se fecha. Na política, rejeição elevada não é traço de estilo nem ruído de campanha. É passivo concreto, mensurável e potencialmente fatal. Poucos estão dispostos a atravessar uma eleição presidencial carregando um peso que compromete a travessia antes mesmo da largada.