O episódio no início de setembro expôs mais uma vez a distância entre a retórica política e a realidade econômica. Adriano Galdino transformou a tribuna da Assembleia Legislativa da Paraíba em palco de ajuste de contas com Romeu Zema. Pediu a exibição do vídeo em que o governador mineiro dizia que o Sudeste está “cansado de subsidiar” o Nordeste e, diante dos deputados, rebateu com firmeza: é preconceito disfarçado de análise econômica.
Galdino levou dados para o embate. Em 2024, o BNDES despejou quase R$ 100 bilhões em financiamentos no Sul e Sudeste, contra R$ 13 bilhões no Nordeste. Em 2025, foram R$ 256 bilhões em isenções fiscais para o Sudeste contra R$ 79 bilhões para o Nordeste. Em termos de programas sociais, a conta maior do Bolsa Família e do BPC está em São Paulo, não no Sertão. Itaipu custou trezentas vezes mais que a transposição do São Francisco e nunca foi tachada de fardo nacional.
O presidente da ALPB ainda mirou no calcanhar de Zema: Minas Gerais é o estado que mais deve à União e, mesmo assim, articula para não pagar. O que está em jogo, disse Galdino, não são apenas ofensas regionais, mas uma narrativa política que ignora a matemática elementar.
Galdino concluiu pedindo união da imprensa e da classe política nordestina para desconstruir o que chamou de discurso racista e preconceituoso. “É preciso acabar com essa falácia de que o Nordeste vive às custas da União. Quem sempre mamou nas tetas do governo foram os estados do Sul e do Sudeste. Minas Gerais, inclusive, é o que mais deve ao Brasil e articula politicamente para não pagar sua dívida”, disparou.
No fundo, o episódio mostra a clássica inversão de papéis já descrita em tantas economias pelo mundo. Regiões mais ricas concentram os privilégios fiscais e financeiros e, ainda assim, se colocam no papel de vítimas de quem recebe menos. Galdino desmontou a ficção com números. O desafio é se o debate público, movido por mitos convenientes, permitirá que esses números falem mais alto.
Leia também:
Lula endurece tom e mira opositores em pronunciamento nacional
Artigo de Queiroga expõe crise de liderança e aponta Efraim como saída
O voo sem comandante na política paraibana
Negócio bilionário naufraga e BRB recua após decisão implacável do BC
Sem aval de Marcos Pereira, vice no DF não decola
redacao@colunapolitica.com.br
Ronaldo Nóbrega é jornalista e memorialista, com quase três décadas de atuação na imprensa e na análise institucional. Aos 16 anos, emancipou-se para ingressar no mercado de comunicação, iniciando sua trajetória no jornal A Hora, no Nordeste. Em Brasília, atuou como consulente no Tribunal Superior Eleitoral por 12 anos. Em 2005, teve papel de destaque na Consulta nº 1.185, que contestou a Regra da Verticalização e resultou na Emenda Constitucional nº 52/2006, marco que consolidou a autonomia partidária no Brasil.

