Coluna Política

Quando a ausência vira referência

Ronaldo Nóbrega  -   7 de janeiro de 2026

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O tempo costuma ser implacável com quase tudo. Pessoas, discursos, reputações. Dez anos depois, não é apenas a memória afetiva, sempre generosa, que permanece, mas também aquilo que foi construído com consistência. É nesse ponto que a lembrança de Jurandy Nóbrega se impõe, sem esforço e sem adjetivos. 

Não se trata de nostalgia. Trata-se de método. Jurandy Nóbrega pertenceu a uma geração de jornalistas para quem a palavra era instrumento de responsabilidade pública, não de autopromoção. O jornalismo político que exerceu na Paraíba, em Pernambuco, em Brasília e no Rio Grande do Norte exigia apuração, paciência e uma virtude hoje rara, a contenção.

Passou por redações onde o erro tinha custo alto e o acerto raramente rendia aplausos. Tribuna do Norte, Jornal de Natal, Gazeta do Oeste, O Jornal de Hoje, Correio Braziliense, Diário de Natal. Nas rádios, Espinharas, Borborema, Nacional, Planalto, Poty, Tropical e Cidade. Ambientes distintos, a mesma lógica profissional, informar antes de interpretar, entender antes de opinar.

Sua morte, aos 71 anos, em 2016, encerrou uma trajetória, mas não apagou sua presença. 

A foto do tio Jurandy Nóbrega no estúdio de uma emissora de rádio revela mais do que um cenário profissional. Ela traduz um modo de fazer jornalismo. Num tempo em que a profissão frequentemente confunde barulho com relevância, a memória de Jurandy Nóbrega se afirma como lembrança necessária. Mostra que a credibilidade não nasce da retórica inflamada nem do excesso de voz, porém, da coerência construída ao longo do tempo, microfone após microfone, palavra após palavra.

Algumas ausências fazem ruído. Outras organizam o silêncio. As segundas quase sempre duram mais.

redacao@colunapolitica.com.br

Ronaldo Nóbrega é jornalista e memorialista, com quase três décadas de atuação na imprensa e na análise institucional. Aos 16 anos, emancipou-se para ingressar no mercado de comunicação, iniciando sua trajetória no jornal A Hora, no Nordeste. Em Brasília, atuou como consulente no Tribunal Superior Eleitoral por 12 anos. Em 2005, teve papel de destaque na Consulta nº 1.185, que contestou a Regra da Verticalização e resultou na Emenda Constitucional nº 52/2006, marco que consolidou a autonomia partidária no Brasil.

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