O setor elétrico brasileiro descobriu, com certo atraso, que powerpoint não gera megawatt. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) informou que, ao longo de 2025, foram revogadas 509 outorgas de usinas solares e eólicas, algo em torno de 22 gigawatts. Tudo a pedido das próprias empresas. Não foi o Estado malvado. Foi a planilha.
Durante anos, venderam a ideia de que bastava carimbar autorizações para o Brasil virar uma Disneylândia verde movida a vento e sol. Autorizações brotaram como cogumelos depois da chuva, muitas delas sem lastro financeiro, sem contrato, sem comprador e, em alguns casos, sem o mínimo constrangimento técnico. Agora veio a conta.
A maioria das revogações ocorreu porque os empreendedores perceberam o óbvio ululante: o projeto não se paga. Juros subiram, subsídios encolheram, a rede ficou congestionada e o mercado deixou de acreditar em promessas embaladas como salvação climática. Milagre, como se sabe, não entra em leilão.
A nova lei do setor elétrico ajudou a acelerar a faxina. Permitiram a devolução das outorgas sem penalidade para quem tinha prazo estendido para manter descontos no uso da rede, mas nunca chegou a assinar contrato algum. Resultado: 158 empreendimentos correram para sair pela porta da frente, levando junto R$ 1,04 bilhão em garantias. Outros 190 perderam o prazo e deixaram R$ 1,41 bilhão na mesa. Um curso intensivo de realidade para investidores distraídos.
Nada disso significa o fim da transição energética, como alguns já ensaiam dramatizar. Significa apenas o fim da fantasia. Energia renovável continua sendo necessária. O que não é necessário é fingir que qualquer projeto é viável só porque vem pintado de verde.
O mercado fez o que a retórica se recusou a fazer: separar discurso de negócio. No Brasil de 2025, até o vento e o sol passaram a exigir algo raro no debate público. Viabilidade.
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Ronaldo Nóbrega é jornalista e memorialista, com quase três décadas de atuação na imprensa e na análise institucional. Aos 16 anos, emancipou-se para ingressar no mercado de comunicação, iniciando sua trajetória no jornal A Hora, no Nordeste. Em Brasília, atuou como consulente no Tribunal Superior Eleitoral por 12 anos. Em 2005, teve papel de destaque na Consulta nº 1.185, que contestou a Regra da Verticalização e resultou na Emenda Constitucional nº 52/2006, marco que consolidou a autonomia partidária no Brasil.

