Coluna Política

Quando a narrativa muda, o apoio evapora

Ronaldo Nóbrega  -   6 de janeiro de 2026

Ouça este conteúdo
1x

Os dados divulgados pela Ativaweb DataLab sobre a repercussão digital da alegada captura de Nicolás Maduro oferecem uma lição clássica da política contemporânea, amplificada pelas redes sociais. Em apenas 24 horas, o sentimento majoritariamente favorável ao episódio perdeu consistência e abriu espaço para críticas crescentes. Não porque o fato central tenha mudado, mas porque mudou a forma como ele passou a ser apresentado e interpretado.

No dia 5 de janeiro, o enquadramento dominante era simples e poderoso. Prisão de um autocrata. Possível queda de um regime acusado de violações sistemáticas de direitos. O resultado foi previsível. O impacto do acontecimento organizou o debate e produziu apoio elevado, tanto no cenário global quanto no brasileiro. A narrativa do desfecho histórico falou mais alto do que qualquer consideração geopolítica mais cuidadosa.

O dia seguinte trouxe outra lógica. Após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o eixo do debate deslocou-se da ideia de justiça para a de intervenção. Os números captados pela Ativaweb mostram com clareza esse movimento. O sentimento negativo quase dobrou no plano global e, no Brasil, atingiu um quarto das menções. O apoio, embora ainda majoritário, perdeu densidade e passou a conviver com um ceticismo crescente.

Essa virada não é um detalhe estatístico. Ela revela um traço recorrente das crises internacionais no ambiente digital. O apoio imediato nasce do choque do fato. A sua continuidade depende da legitimidade percebida da condução política. Quando a narrativa passa a sugerir tutela externa, controle ou protagonismo excessivo de uma potência estrangeira, o entusiasmo inicial tende a se dissipar.

No Brasil, o efeito foi mais sensível. A tradição diplomática de defesa da soberania e de cautela diante de intervenções externas, somada à polarização interna sobre política internacional, funcionou como catalisador da crítica. A discussão deixou de ser sobre Maduro e passou a ser sobre Trump. E, nesse terreno, o consenso se desfaz rapidamente.

O estudo da Ativaweb confirma algo que governos e líderes frequentemente subestimam. Em política, fatos importam, porém, não sobrevivem sozinhos. São as narrativas que lhes dão sentido, duração e apoio. No caso venezuelano, a história contada no dia 5 prometia o fim de um regime. A do dia 6 sugeria intervenção e controle. A mudança de humor nas redes não foi casual. Foi consequência direta dessa troca de enredo.

Ignorar esse mecanismo é insistir em um erro conhecido. Em tempos de comunicação instantânea, quem perde o controle da narrativa perde, pouco a pouco, o apoio que parecia garantido.

redacao@colunapolitica.com.br

Ronaldo Nóbrega é jornalista e memorialista, com quase três décadas de atuação na imprensa e na análise institucional. Aos 16 anos, emancipou-se para ingressar no mercado de comunicação, iniciando sua trajetória no jornal A Hora, no Nordeste. Em Brasília, atuou como consulente no Tribunal Superior Eleitoral por 12 anos. Em 2005, teve papel de destaque na Consulta nº 1.185, que contestou a Regra da Verticalização e resultou na Emenda Constitucional nº 52/2006, marco que consolidou a autonomia partidária no Brasil.

Compartilhe