A política não gosta de improviso. Tolera a astúcia, reverencia o cálculo e despreza os distraídos. Quem não entende isso acaba comentando o jogo na arquibancada enquanto outros repartem o poder na mesa principal.
Gilberto Kassab não fala para aplausos. Trabalha para resultados. O presidente nacional do PSD joga a política como se fosse engenharia pesada: mede terreno, calcula peso, distribui pilares. Seu projeto para 2026 é inequívoco: eleger o maior número possível de governadores e transformar o partido em força incontornável no dia seguinte à eleição.
Nesse desenho, o Distrito Federal não é detalhe administrativo. É centro nervoso. Brasília não produz apenas leis, produz sinais. E sinais, quando bem lidos, viram poder.
A filiação de José Roberto Arruda ao PSD, sacramentada em dezembro no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, não foi ato social nem gesto de nostalgia. Foi movimento de tabuleiro. Kassab sabe que Arruda ainda concentra capital político, memória administrativa e capacidade de articulação. Em Brasília, isso pesa.
O evento teve roteiro claro. Lideranças alinhadas, parlamentares em coro, discurso sem arroubos morais e sem radicalismo retórico. Nada de bandeiras ideológicas. Apenas o que interessa à política real: alianças possíveis, caminhos abertos e silêncio estratégico onde ainda há negociação.
Quando Arruda fala em diálogo “sem radicalismo ideológico”, traduz o espírito do PSD desde sua fundação. Governo antes de grito. Poder antes de narrativa. Resultado antes de catecismo.
Como dizia um saudoso amigo paraibano, o ex-deputado federal Rômulo Gouveia, membro fundador do PSD: na política, o poder não se pede, se ocupa. Kassab ocupa. Com método, com frieza e com a paciência de quem sabe que, no Brasil, quem controla os estados acaba mandando mais do que quem faz discurso em rede social.
redacao@colunapolitica.com.br
Ronaldo Nóbrega é jornalista e memorialista, com quase três décadas de atuação na imprensa e na análise institucional. Aos 16 anos, emancipou-se para ingressar no mercado de comunicação, iniciando sua trajetória no jornal A Hora, no Nordeste. Em Brasília, atuou como consulente no Tribunal Superior Eleitoral por 12 anos. Em 2005, teve papel de destaque na Consulta nº 1.185, que contestou a Regra da Verticalização e resultou na Emenda Constitucional nº 52/2006, marco que consolidou a autonomia partidária no Brasil.

