A mais recente pesquisa do Datafolha trouxe um alerta em letras garrafais para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A reprovação ao seu governo alcança 51 por cento no Sul, 44 por cento no Centro-Oeste e Norte, e 43 por cento no Sudeste. A única região em que Lula mantém fôlego é o Nordeste, com índice de reprovação de 28 por cento. Entre os evangélicos, a resistência permanece elevada, revelando uma desconexão persistente entre o Planalto e esse eleitorado.
Em meio ao ruído político, talvez Lula devesse adotar um gesto simples. Reler, com calma, a carta que ele próprio escreveu ao povo evangélico em 2022, no calor da disputa de segundo turno. A mesma carta que foi redigida para desarmar suspeitas, afastar temores e recuperar pontes com pastores e fiéis de todo o país.
Na carta, Lula fez questão de lembrar que foi em seus governos anteriores que se assinou o decreto da Marcha para Jesus, que se instituiu o Dia Nacional dos Evangélicos e que a liberdade religiosa foi reafirmada no Código Civil. Relembrou que as igrejas evangélicas cresceram como nunca durante sua gestão, com liberdade para pregar, construir templos e enviar missionários.
O texto, recheado de referências bíblicas, reforçava o compromisso com a família, com a juventude, com o combate às drogas e com a proteção da infância. Lula também se posicionava pessoalmente contra o aborto, afirmando que essa decisão caberia ao Congresso e não ao presidente. Prometia ainda respeito à separação entre Igreja e Estado e garantia que seu governo jamais usaria símbolos religiosos para fins político-partidários.
A carta parece esquecida na gaveta. A relação com os evangélicos arrefeceu. Poucos líderes do segmento circulam com protagonismo no governo. Faltam gestos, faltam pontes, falta proximidade. E sobram números preocupantes nas pesquisas.
Lula, que tanto valorizou a simbologia em sua trajetória política, poderia recomeçar por onde já passou. Reabrir o envelope que ele mesmo selou. Reafirmar, publicamente, os compromissos que assinou. A carta existe. O que falta é que o presidente volte a lê-la com a seriedade com que foi escrita. Porque o Datafolha já mostrou o tamanho do problema. E os templos, sempre atentos, ainda esperam por respostas.

