Coluna Política

Silêncio que grita: Lula ignora crise e afunda no algoritmo, alerta Alek Maracajá

Ronaldo Medeiros   -   13 de junho de 2025

Ouça este conteúdo
1x

Em meio maior crise de reputação digital desde o início de seu terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) perdeu cerca de 1 milhão de seguidores no Instagram e no Facebook entre janeiro e maio de 2025. Os dados são do estudo “Vida Digital de Lula”, lançado pela agência Ativaweb no início de junho.

O relatório aponta uma queda expressiva tanto nos números de seguidores quanto na percepção pública do presidente nas redes, com engajamento em declínio, e sentimento negativo atingindo 79% no pico da crise, em abril — catalisada pelo escândalo do INSS.

Para compreender os bastidores desta erosão digital e os sinais que a comunicação institucional parece ignorar, a Coluna Política conversou com o CEO da Ativaweb, Alek Maracajá(foto), presidente da ABRADI-PB (Associação Brasileira dos Agentes Digitais), professor de Big Data e Estratégia Digital na ESPM, membro do Laboratório de Combate à Desinformação da UFPB e criador da própria plataforma Ativaweb. Maracajá tem se consolidado como uma das vozes mais respeitadas na análise crítica do ecossistema digital brasileiro.

Com uma trajetória que une mercado, ciência de dados, formação acadêmica e atuação institucional, é conhecido por integrar tecnologias de ponta a uma leitura semântica profunda dos debates públicos nas redes.

A seguir, confira a entrevista na íntegra.

Ronaldo Medeiros/Coluna Política: Apesar de avanços na gestão, como a retomada de investimentos, programas sociais e melhora de indicadores econômicos, o governo Lula parece não estar conseguindo traduzir esses feitos em capital digital nas redes. O estudo da Ativaweb aponta essa desconexão. A que você atribui essa dificuldade de transformar gestão em narrativa engajadora?

Alek Maracajá: Vivemos hoje em bolhas digitais reforçadas por algoritmos que tendem a nos manter em zonas de conforto ideológicas. A gestão pode estar entregando resultados, mas se isso não é comunicado de forma simples, emocional e conectada com o ritmo das redes, o público não percebe. O problema não está na entrega em si, mas na falta de curadoria narrativa. A comunicação digital exige linguagem viva, escuta ativa e velocidade. Sem isso, até os acertos passam despercebidos. "Resultado de governo não viraliza sozinho. É preciso transformar entrega em narrativa viva, emocional e distribuída em tempo real."

Coluna Política: O levantamento da Ativaweb apontou uma perda significativa de seguidores nos perfis do presidente Lula entre janeiro e maio. Pode explicar qual metodologia foi utilizada para esse monitoramento nas redes sociais?

Alek Maracajá: Utilizamos técnicas avançadas de Big Data, com coleta automatizada de dados públicos por meio de APIs das plataformas META (Instagram e Facebook), além de modelos de NLP (Processamento de Linguagem Natural) e análise de sentimento. A coleta é feita por ferramentas proprietárias da Ativaweb, projetadas para rastreamento contínuo. O período de monitoramento compreende de 1º de janeiro a 30 de maio de 2025, com varredura diária de indicadores como número de seguidores, interações, menções, hashtags e volume emocional de engajamento. "Big Data aplicado à política exige rastreamento contínuo, varredura diária e leitura algorítmica precisa — é isso que garante a robustez do nosso estudo."

Coluna Política: A Secom contestou os números divulgados, afirmando que a Ativaweb teria considerado apenas os usuários que deixaram de seguir o presidente, sem contabilizar os novos seguidores. Como você responde a essa crítica?

Alek Maracajá: Essa crítica não procede. Os dados apresentados são de saldo líquido, ou seja, o resultado final após descontar os novos seguidores. A perda de 1 milhão de seguidores é um número consolidado após essa compensação. A metodologia é pública, auditável e baseada em rastreamento contínuo, não em estimativas pontuais. "Trabalhamos com saldo líquido, não com ruído. A metodologia da Ativaweb considera entrada e saída, com base em rastreamento validado e replicável."

Coluna Política: Qual o intervalo de coleta dos dados e que tipo de ferramenta ou tecnologia a Ativaweb utiliza para garantir a precisão desses relatórios?

Alek Maracajá: O intervalo foi de 1º de janeiro a 30 de maio de 2025. Utilizamos ferramentas próprias da Ativaweb, com integração a plataformas de monitoramento de redes sociais, validação cruzada e leitura algorítmica de sentimento. A coleta é realizada diariamente, com comparativos semanais e mensais. A precisão dos dados vem do uso de tecnologia própria e protocolos replicáveis. "A precisão dos nossos relatórios vem do cruzamento entre tecnologia proprietária, leitura semântica e protocolos de coleta auditável dia após dia."

Coluna Política: Houve algum pico específico de perda de seguidores nos perfis de Lula que tenha chamado a atenção da equipe da Ativaweb? Pode nos dar um exemplo?

Alek Maracajá: Sim. O maior pico ocorreu em abril de 2025, durante a crise do INSS. Foram 2,88 milhões de menções em 24 horas, com 79% de sentimento negativo, e o maior volume de perda líquida de seguidores registrado no período. O episódio funcionou como catalisador de insatisfação que já vinha sendo acumulada.  "Quando a indignação é orgânica, ela se espalha como incêndio. Abril mostrou que ausência de resposta imediata custa mais que a própria crise."

Coluna Política: A análise também observou queda de engajamento nas redes do presidente, além da perda de seguidores. Como esse dado deve ser interpretado do ponto de vista político e comunicacional?

Alek Maracajá: O engajamento é o verdadeiro termômetro da conexão com a base. Quando ele cai, mesmo com seguidores ainda presentes, significa que o conteúdo não emociona, não mobiliza e não estimula conversa. É o que chamamos de desmobilização silenciosa: o público está lá, mas sem resposta. Isso compromete a autoridade simbólica do perfil.  "Seguidores silenciosos não reelegeriam ninguém. Quando o conteúdo deixa de gerar reação, o perfil perde pulsação política e autoridade simbólica."

Coluna Política: Como o estudo identifica a correlação entre eventos políticos e variações digitais? Existe uma metodologia específica para isso?

Alek Maracajá: Sim. Fazemos o cruzamento temporal entre eventos públicos e variações nos indicadores digitais — como número de menções, taxa de sentimento e flutuação de seguidores. A análise é complementada por ferramentas de clusterização semântica, que indicam quais termos ou fatos se tornaram gatilhos de crise. Cada ponto crítico apresentado no estudo tem um histórico técnico que comprova sua associação direta ao impacto digital.  "Cada oscilação tem um gatilho identificável. A correlação é feita por inteligência algorítmica e leitura semântica do que realmente move o debate público."

Coluna Política: Na sua visão, a oscilação no número de seguidores pode refletir desgaste político ou há outros fatores que influenciam esse tipo de variação nas redes sociais?

Alek Maracajá: A variação é multifatorial. Pode representar desgaste político, sim, mas também desinteresse por falta de conexão emocional, excesso de institucionalidade, falhas na escuta digital e saturação de conteúdo. O presidente Lula é um dos maiores comunicadores da história do Brasil, com uma capacidade única de gerar empatia e diálogo no corpo a corpo. O problema é que sua equipe digital não tem conseguido traduzir esse patrimônio simbólico para a linguagem das redes. A comunicação presidencial está travada em um formato que não mobiliza, não emociona e não dialoga com a lógica das plataformas. "A queda de seguidores é um termômetro, mas o diagnóstico é mais profundo: falta emoção, ritmo e escuta ativa na comunicação presidencial."

Coluna Política: Em um cenário em que mais de 50% dos eleitores ainda estão indefinidos, como você avalia o risco de não corrigir essa erosão digital?

Alek Maracajá: O risco é alto. A narrativa digital hoje antecede a política tradicional. Quem não consegue se comunicar com clareza, leveza e impacto nas redes sociais perde espaço na construção simbólica de autoridade. Com metade do eleitorado indeciso, a ausência de uma comunicação eficaz pode abrir caminho para que outros atores ocupem esse vácuo narrativo.  "No digital, ausência de narrativa é espaço aberto para o adversário ocupar. Quem não comunica com dados, emoção e clareza, perde o jogo antes da urna."

Compartilhe