O Brasil, mais uma vez, assiste a um paradoxo: aposentados e pensionistas, justamente aqueles que mais contribuíram com o tempo, enfrentam filas em agências dos Correios para descobrir se seus benefícios foram alvo de fraudes no INSS. Desde o fim de maio, a cena se repete — idoso por idoso, senha por senha — em mais de quatro mil unidades espalhadas pelo país. A demanda é legítima.
A burocracia brasileira, tantas vezes criticada por sua morosidade, parece hesitar mesmo quando a estrutura já existe. Neste caso, estamos falando de mais de 12 mil cartórios em funcionamento, com presença física em municípios do país, estrutura consolidada e, sobretudo, capacidade técnica.
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) vem determinando padrões de segurança e digitalização para essas serventias. Como exemplo, o Provimento nº 74 não é apenas uma norma: é um passo civilizatório para garantir que a tecnologia sirva à dignidade — especialmente aos mais vulneráveis.
Os cartórios, que durante décadas carregaram a imagem de ritos formais e carimbos, hoje operam com plataformas digitais, certificações avançadas e um compromisso renovado com a prestação de serviços públicos. O que falta, talvez, seja uma decisão política simples: enxergá-los como parte da solução.
A pergunta, que já circula nos bastidores da Previdência, é direta: por que não somar forças com os cartórios para ampliar o atendimento presencial e aliviar a pressão sobre os Correios?
Não se trata apenas de logística. É uma discussão sobre justiça social, sobre acesso. Sobre reconhecer que o Brasil profundo, muitas vezes invisível nos gabinetes, pode ser amparado por estruturas que já estão em campo.
No fim, não se trata de reinventar a máquina pública — mas de sincronizá-la. E, quando isso acontece, a dignidade caminha mais rápido que a fila.
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