As pesquisas eleitorais costumam induzir uma leitura simplificada da política. Quando um candidato enfrenta uma sequência de notícias negativas, espera-se que sua intenção de voto recue na mesma proporção. Mas eleições presidenciais raramente obedecem a essa lógica.
O mais recente levantamento do Datafolha mostra exatamente isso. Apesar do ambiente desfavorável enfrentado pelo senador Flávio Bolsonaro, o impacto sobre sua base eleitoral foi praticamente inexistente. Lula ampliou sua vantagem em apenas um ponto percentual, alcançando 48% contra 43% do senador em um eventual segundo turno.
O dado não revela apenas estabilidade. Revela uma característica estrutural da política brasileira contemporânea.
A polarização consolidou eleitorados que passaram a funcionar muito mais como comunidades políticas do que como agrupamentos eleitorais tradicionais. Esses eleitores não reagem automaticamente ao fluxo de notícias. Interpretam acontecimentos a partir da identidade política que construíram ao longo dos últimos anos.
Esse comportamento produz um efeito importante: crises desgastam imagens, mas nem sempre alteram preferências eleitorais no curto prazo.
É justamente esse aspecto que precisa ser observado por Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), hoje posicionados como alternativas dentro do campo da centro-direita.
Existe uma tentação recorrente em campanhas presidenciais: imaginar que o desgaste de um adversário abrirá naturalmente espaço para outro candidato ocupar esse eleitorado. A experiência internacional demonstra exatamente o contrário.
Na França, na Itália, na Espanha, nos Estados Unidos e em diversos países latino-americanos, candidaturas competitivas surgiram não porque aguardaram o enfraquecimento dos líderes tradicionais, mas porque conseguiram construir uma narrativa própria, coerente e suficientemente forte para justificar uma migração de votos.
No Brasil, esse desafio é ainda maior.
O eleitor conservador e liberal possui, hoje, forte identidade política. A eventual perda de apoio de Flávio Bolsonaro não significa, automaticamente, ganho para Caiado ou Zema. Entre abandonar um candidato e aderir a outro existe um processo complexo de reconstrução de confiança.
É aí que reside o verdadeiro teste das duas pré-candidaturas.
Ronaldo Caiado possui uma trajetória marcada pela segurança pública, pelo agronegócio e pela gestão estadual. Romeu Zema construiu sua imagem sobre eficiência administrativa, austeridade fiscal e gestão empresarial.
Nenhum desses atributos, por si só, garante transferência espontânea de votos.
Ambos precisarão responder a uma pergunta fundamental que toda eleição presidencial impõe: por que o eleitor deveria trocar um líder com o qual já possui identificação por outro que ainda precisa conquistar legitimidade nacional?
Essa resposta não será construída apenas em debates ou programas eleitorais.
Ela dependerá da capacidade de apresentar um projeto de país capaz de dialogar com temas que ultrapassam a administração estadual: crescimento econômico, equilíbrio fiscal, segurança institucional, política externa, inovação, reforma do Estado, desenvolvimento regional e redução das desigualdades.
Outro elemento merece atenção.
O calendário eleitoral ainda está distante do momento decisivo. Pesquisas realizadas antes da consolidação das candidaturas medem, sobretudo, níveis de conhecimento, memória eleitoral e identidade política. Não captam integralmente o efeito que campanhas, alianças, debates e fatos novos produzirão sobre o eleitor.
É justamente nesse intervalo que campanhas inteligentes costumam construir vantagem competitiva.
Por isso, tanto Caiado quanto Zema precisam evitar um erro estratégico: estruturar suas campanhas esperando que o desgaste de Flávio Bolsonaro lhes entregue parte do eleitorado conservador.
A política raramente recompensa quem apenas espera.
Eleições presidenciais são vencidas por quem ocupa espaços antes que eles existam. Quem cria uma narrativa antes dos adversários. Quem oferece uma visão de futuro quando os demais permanecem reagindo ao noticiário.
O Datafolha traz, portanto, uma mensagem que vai além dos números. Ele demonstra que a resiliência eleitoral continua sendo uma das principais características da política brasileira. Em ambientes altamente polarizados, votos não mudam de endereço por inércia.
Para Ronaldo Caiado e Romeu Zema, a conclusão é inequívoca: se pretendem liderar o campo da direita em 2026, precisarão conquistar esse eleitorado. Não poderão esperar herdá-lo. É uma diferença sutil na teoria, mas decisiva na prática eleitoral.

