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Coluna Política

Luciano Bivar e Humberto Costa: a democracia entra em campo

Ronaldo Medeiros   -   20 de julho de 2026

Entre Luciano Bivar e Humberto Costa, a política reencontra a democracia

A confirmação do deputado federal Luciano Bivar (MDB-PE) como suplente do senador Humberto Costa (PT-PE) provocou reações previsíveis. Parte da cobertura política preferiu enquadrar o movimento como uma mudança de lado de um antigo aliado de Jair Bolsonaro. É uma leitura simples para um cenário complexo.

A política democrática não se mede pela permanência ao lado das mesmas pessoas, mas pela fidelidade aos princípios que orientam as escolhas. Alianças mudam. Convicções, quando verdadeiras, deixam rastros.

No caso de Luciano Bivar, esses rastros existem. Muito antes de a ruptura com Bolsonaro se tornar consenso em diferentes setores da política, ele já havia tornado públicas suas divergências. Em 2024, publicou Democracia Acima de Tudo, obra em que registra sua preocupação com o enfraquecimento das instituições, o personalismo e a substituição dos partidos por projetos centrados em lideranças individuais.

Um dos episódios mais emblemáticos narrados no livro ocorreu durante uma reunião pública, quando a então deputada Carla Zambelli afirmou, sem hesitação: "Meu partido é Bolsonaro." Para Bivar, aquela frase representou muito mais que uma declaração política. Simbolizou a erosão do sistema partidário e a transformação da lealdade institucional em devoção pessoal.

A obra também aborda o isolamento diplomático do Brasil, os conflitos entre os Poderes e a reunião de Bolsonaro com embaixadores, posteriormente considerada um dos elementos que culminaram em sua inelegibilidade. São reflexões publicadas dois anos antes da atual composição política em Pernambuco.

Sob essa perspectiva, a aproximação entre Bivar e Humberto Costa não representa uma guinada oportunista, mas a continuidade de uma visão que passou a colocar a defesa das instituições democráticas acima das antigas divisões ideológicas.

A história política brasileira oferece exemplos semelhantes. Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin protagonizaram algumas das disputas eleitorais mais acirradas da República. Hoje governam juntos. 

É nessa tradição que se insere a aliança entre Luciano Bivar e Humberto Costa. Ela não exige identidade de pensamento nem elimina divergências. Apenas reconhece que a democracia também se fortalece quando antigos adversários encontram um terreno comum em defesa das regras do jogo democrático.

A política perde qualidade quando transforma qualquer mudança de aliança em acusação de incoerência. Democracias maduras não se sustentam na imobilidade, mas na capacidade de construir consensos sem abrir mão dos princípios.

Talvez seja exatamente isso que essa composição represente: menos uma mudança de lado e mais a reafirmação de que, acima das disputas eleitorais, as instituições continuam sendo o patrimônio mais valioso da democracia brasileira.