O presidente do Senado Federal e do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre, abriu o ano legislativo pedindo paz. Quando uma autoridade precisa convocar paz em Brasília, é sinal de que não há paz alguma disponível no estoque institucional. A palavra costuma aparecer quando as tensões estão tão evidentes que já não se pode ignorá-las.
Na sessão solene na Câmara dos Deputados, Alcolumbre decidiu falar de diálogo e maturidade política. O discurso soou como aquelas declarações que tentam parecer nobres, mas entregam mais sobre o ambiente real do que sobre qualquer ideal de convivência democrática. Se o Senado e a Câmara precisassem apenas de “bom senso”, o país já estaria em situação mais confortável há anos.
O apelo pela harmonia entre ideologias e Poderes soa quase como uma confissão involuntária. Quando se enfatiza tanto o óbvio, é porque o óbvio não está sendo praticado. A paz solicitada não é exatamente uma virtude republicana, mas uma necessidade operacional. Brasília vive de turbulência, ruído, disputa orçamentária e agendas que mudam conforme o vento político. A calmaria só aparece em discursos de abertura e em notas oficiais redigidas com cautela.
Fica a sensação de que a fala de Alcolumbre pretende inaugurar o ano legislativo sob um clima de sobriedade. Mas a Praça dos Três Poderes raramente segue o roteiro. E quando a cúpula precisa insistir tanto na ideia de paz, o melhor é preparar o espírito para mais uma temporada de pequenas tempestades políticas disfarçadas de normalidade institucional.