image
Coluna Política

O realismo político da reforma administrativa

Ronaldo Nóbrega  -   2 de fevereiro de 2026

A leitura do deputado Pedro Paulo (PSD-RJ) sobre a reforma administrativa expõe uma verdade incômoda da política brasileira: há temas que o Congresso só consegue tratar fora do calendário eleitoral. Ao defender que a discussão fique para 2027, o parlamentar não faz um gesto de recuo, mas de realismo político.

A reforma administrativa é, por definição, um assunto de alto risco político em ano de eleição. Ela mexe com interesses organizados, afeta servidores públicos e gera ruído imediato nas bases eleitorais. Em 2026, qualquer tentativa de avançar tende a produzir dois resultados previsíveis: ou o texto é desfigurado para sobreviver politicamente, ou se transforma em arma retórica, sem compromisso com o mérito.

O argumento de que é preciso “andar” a qualquer custo ignora a experiência recente do país. Reformas empurradas sob pressão costumam nascer fracas e envelhecer rápido. A própria dificuldade de manter o apoio formal à PEC 38/2025, com a retirada de assinaturas de deputados que antes a endossavam, funciona como termômetro do desgaste político antes mesmo do início do debate substantivo.

Há ainda um elemento central pouco mencionado no discurso público: a ausência do governo federal. Sem o Executivo, não há reforma administrativa viável. A ideia de pular etapas e levar o tema diretamente ao plenário pode até produzir manchetes, mas dificilmente entregará um texto consistente. Sem coordenação política, o que se constrói é ruído institucional.

Ao apontar 2027 como horizonte, Pedro Paulo toca no ponto essencial. Reformar o Estado exige tempo político, capital de negociação e ambiente minimamente estável. Um Congresso recém-eleito, com menor pressão eleitoral imediata, oferece condições mais racionais para discutir eficiência, custos e papel do setor público.

O debate, portanto, não é sobre pressa, nem sobre vontade política abstrata. É sobre método. O Brasil já mostrou, mais de uma vez, que reformas feitas no calor da disputa eleitoral tendem a resolver pouco e criar novos problemas. A reforma administrativa não escapa a essa lógica.