O governador da Paraíba, João Azevêdo (PSB), aprende, talvez tarde, que desprezo vira ruptura. Na política, não é a divergência que rompe alianças, mas a desconsideração. O deputado estadual Hervázio Bezerra (PSB) não saiu em silêncio, não negociou nos bastidores, não ensaiou reconciliação. Falou em voz alta, em público, e fechou a porta sem olhar para trás.
O parlamentar decidiu tornar explícito o que muitos preferem mascarar com notas frias e juras de lealdade circunstancial. Disse que não apoiará o governador na corrida ao Senado em 2026. Não por cálculo eleitoral, não por rearranjo partidário, porém, por algo mais primário e mais perigoso na política: ressentimento pessoal. Quando o respeito some, a conta chega.
A origem do rompimento está numa frase, dessas que governantes costumam tratar como detalhe administrativo. Comentários de João Azevêdo sobre a Secretaria de Esportes, Juventude e Lazer, a Sejel, que Hervázio comandou em 2019. Ao comparar gestões, o governador sugeriu que antes não havia resultados. Hervázio ouviu ali não uma avaliação técnica, contudo, um carimbo de incompetência. E político pode até tolerar ingratidão. Inutilidade, não.
Veio a réplica em forma de números. Orçamento de R$ 6 milhões no passado contra R$ 33 milhões no presente. Comparar desempenho sem mencionar recursos é expediente antigo, eficaz para discursos e desastroso para relações. Hervázio não discutiu política pública. Discutiu honra. E quando a discussão entra nesse terreno, não há mediação possível.
O deputado foi direto. Votará em dois senadores, menos em João Azevêdo. Separou o seu CPF do filho, o vice-prefeito de João Pessoa, e deixou claro que não fala por terceiros. Falou por si. Também avisou que não pedirá cargos, não ligará, não pressionará, não fará cena. Se houver exonerações, que ocorram. Indiferença, nesse caso, funciona como punição.
O episódio revela mais do que um atrito pessoal. Expõe uma fissura real no Partido Socialista Brasileiro e desmonta a narrativa de unidade da base governista. Mostra que alianças sustentadas apenas pelo poder se desfazem quando falta consideração. Um prefeito do sertão paraibano, sob reserva, resume assim o cenário de 2026: a candidatura de João Azevêdo ao Senado tende a ser menos sobre projetos e mais sobre acertos de contas mal resolvidos.
João Azevêdo aprende, com Hervázio Bezerra, uma lição antiga e frequentemente ignorada. Na política, desprezar aliados custa caro. Às vezes custa um voto. Às vezes custa um mandato. Sempre custa mais do que parece no momento em que a frase é dita nos microfones do programa Arapuan Verdade, da Rádio Arapuan FM.