Três anos depois do 8 de janeiro, quando a democracia brasileira foi submetida a um teste de estresse explícito, o sistema político entrou numa fase menos ruidosa e mais exigente. O episódio deixou uma marca duradoura. Instituições mais vigilantes, regras mais duras e um ambiente menos tolerante com improvisações, aventuras ou ambiguidades em relação à ordem democrática. É nesse cenário que a Democracia Cristã entra no ciclo de 2026.
O partido chega com um ativo raro para legendas do seu porte. Um pré-candidato ao Planalto com densidade política, trajetória institucional e memória histórica. Aldo Rebelo presidiu a UNE quando o país reaprendia a respirar democracia, ainda no processo de transição do regime autoritário, e desde então construiu uma carreira que atravessa décadas do poder em Brasília. Em um momento em que o debate público cobra compromisso inequívoco com as regras do jogo, essa biografia pesa.
O trauma de 8 de janeiro reforçou uma lógica simples. Partidos sem identidade clara, lideranças reconhecidas e compromisso institucional passaram a pagar um preço maior. A pré-candidatura de Aldo não surge como gesto retórico, mas como instrumento de reposicionamento real da legenda em um sistema que se tornou mais seletivo.
À frente do partido, João Caldas conduz uma reorganização silenciosa, porém, estratégica. O slogan “Fé no Brasil” e a reformulação da identidade visual dialogam com um eleitorado que, após os excessos recentes, busca referências nacionais, estabilidade institucional e rejeita tanto o radicalismo quanto soluções fora do perímetro democrático. O histórico da legenda ajuda a sustentar esse discurso. O ex-presidente José Maria Eymael, deputado constituinte em 1988, atuou diretamente na construção do pacto constitucional que hoje serve de anteparo contra rupturas.
O projeto do DC vai além da disputa presidencial. O foco central é a consolidação partidária. Eleger deputados federais, superar a cláusula de barreira e garantir presença estruturada no Congresso. Depois de 8 de janeiro, a sobrevivência política passou a depender ainda mais de organização, método e inserção institucional. A candidatura ao Planalto cumpre papel funcional nesse desenho. Dá visibilidade, organiza palanques e recoloca a sigla no centro do debate político nacional.
A escolha de Aldo Rebelo reforça essa estratégia. Ex-presidente da Câmara, ex-ministro em áreas-chave do Estado e defensor de um nacionalismo institucional, ele oferece um discurso que busca se afastar tanto do negacionismo institucional quanto da polarização permanente. Não é aposta em outsider, todavia, em alguém que conhece o sistema e entende seus limites.
Três anos após o 8 de janeiro, a política brasileira passou a valorizar menos o grito e mais a estrutura. Nesse ambiente mais rígido, a Democracia Cristã sinaliza que optou pelo caminho da organização e da previsibilidade. Em um sistema que aprendeu, a duras penas, o custo da desordem, isso deixou de ser detalhe e passou a ser condição de permanência.
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Ronaldo Nóbrega é jornalista e memorialista, com quase três décadas de atuação na imprensa e na análise institucional. Aos 16 anos, emancipou-se para ingressar no mercado de comunicação, iniciando sua trajetória no jornal A Hora, no Nordeste. Em Brasília, atuou como consulente no Tribunal Superior Eleitoral por 12 anos. Em 2005, teve papel de destaque na Consulta nº 1.185, que contestou a Regra da Verticalização e resultou na Emenda Constitucional nº 52/2006, marco que consolidou a autonomia partidária no Brasil.