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Coluna Política

Mesmo preso, Bolsonaro vira oráculo eleitoral

Ronaldo Nóbrega  -   7 de janeiro de 2026

A política brasileira gosta de reciclar seus próprios clichês. Agora, com a diferença de que o enredo já foi testado e aprovado. Parlamentares aliados de Jair Bolsonaro articulam pedir autorização ao ministro Alexandre de Moraes para visitar o ex-presidente na prisão. Não é visita desinteressada. É despacho político. Cada um quer levar o mapa do seu Estado e voltar com uma resposta simples: pode ou não pode usar o bolsonarismo localmente.

Preso, Jair Bolsonaro passou a operar como um cartório eleitoral informal. Deputados buscam orientação prática sobre com quem fechar, quem apoiar e quem descartar. Ideologia fica do lado de fora; o que entra é cálculo. No Distrito Federal, o impasse ilustra o método. O PL inclina-se a apoiar Celina Leão ao governo local, enquanto José Roberto Arruda avança com sua pré-candidatura. Alguns parlamentares aguardam que Bolsonaro desate o nó com um aceno, um silêncio ou um meio sorriso. No bolsonarismo, isso costuma bastar.

Nada disso é exatamente novidade. Quando Lula esteve preso, a lógica foi rigorosamente a mesma. A ideia do próprio Lula era manter interlocução permanente com lideranças do partido durante as visitas à cadeia. Governava-se o PT do cárcere. Havia dúvidas sobre quando e como as visitas seriam permitidas, mas isso nunca impediu a política de funcionar. Funcionou.

Naquele período, um dos escalados para fazer a ponte com o mundo político foi Fernando Haddad. Disciplinado, quase monástico, ia a Curitiba semanalmente para ouvir, levar recados e manter a engrenagem girando. Lula preso continuava sendo Lula. Bolsonaro preso quer continuar sendo Bolsonaro.

O Brasil repete seus rituais com uma naturalidade impressionante. Muda o personagem, muda o discurso, porém, o método permanece. Ex-presidentes encarcerados, ministros do Supremo como guardiões involuntários da agenda política e partidos que seguem pedindo bênção a líderes ausentes. A República não se constrange. Ela se adapta.

No fim, a prisão não suspende o poder. Apenas o reorganiza. Aqui, líder preso não sai de cena. Vira centro de gravidade. E a política segue, fiel a si mesma, fazendo do improviso uma instituição permanente.

redacao@colunapolitica.com.br

Ronaldo Nóbrega é jornalista e memorialista, com quase três décadas de atuação na imprensa e na análise institucional. Aos 16 anos, emancipou-se para ingressar no mercado de comunicação, iniciando sua trajetória no jornal A Hora, no Nordeste. Em Brasília, atuou como consulente no Tribunal Superior Eleitoral por 12 anos. Em 2005, teve papel de destaque na Consulta nº 1.185, que contestou a Regra da Verticalização e resultou na Emenda Constitucional nº 52/2006, marco que consolidou a autonomia partidária no Brasil.