A Petrobras e a Vale acabam de assinar um contrato de fornecimento de diesel em Minas Gerais que diz muito menos sobre combustível e muito mais sobre narrativa. Oficialmente, trata-se de diesel S10 com os já obrigatórios 15% de biodiesel. Extraoficialmente, vende-se a ideia de futuro, baixo carbono, diesel R, HVO, siglas que soam modernas e tranquilizam consciências em seminários climatizados.
Desde 2023, as duas gigantes ensaiam essa dança verde. Em 2024, testaram misturas, percentuais renováveis e até bunker mais limpo, como se o adjetivo pudesse suavizar a realidade industrial pesada que ambas carregam. Agora, o contrato avança e ganha verniz estratégico, aproximação com o consumidor final, dizem.
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, fala em conhecer melhor o cliente e gerar valor para a sociedade, expressão que, no Brasil, costuma significar alinhar discurso público com conveniência empresarial. Já o CEO da Vale, Gustavo Pimenta, celebra a confiança mútua e a visão de longo prazo, palavra sempre útil quando o presente é cheio de passivos.
No fim, o acordo é menos revolucionário do que parece. Não muda a natureza das empresas nem a escala do problema ambiental. Mas cumpre bem seu papel: sinaliza modernidade, distribui boas intenções e reforça a ideia de que, com alguns pontos percentuais renováveis, o capitalismo pesado brasileiro pode vestir terno sustentável e seguir em frente, com a consciência um pouco mais leve e o motor funcionando a diesel.
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Ronaldo Nóbrega é jornalista e memorialista, com quase três décadas de atuação na imprensa e na análise institucional. Aos 16 anos, emancipou-se para ingressar no mercado de comunicação, iniciando sua trajetória no jornal A Hora, no Nordeste. Em Brasília, atuou como consulente no Tribunal Superior Eleitoral por 12 anos. Em 2005, teve papel de destaque na Consulta nº 1.185, que contestou a Regra da Verticalização e resultou na Emenda Constitucional nº 52/2006, marco que consolidou a autonomia partidária no Brasil.