O Brasil gosta de falar em soberania, mas vive com a mão estendida. A pandemia foi o tapa na cara que revelou o óbvio: não produzimos o que precisamos para sobreviver. Máscaras, respiradores, insumos médicos, fertilizantes, chips, tudo vem de fora. Não por falta de recursos, mas por falta de decisão política e planejamento.
Agora, no palco das tensões geopolíticas, entramos na mira de Donald Trump. Oficialmente, o contencioso é comercial. Extraoficialmente, há incômodos mais prosaicos: a existência de um sistema de pagamentos como o Pix, que ameaça os lucros das big techs norte-americanas, e a possibilidade de taxar plataformas digitais. Some-se a isso o desconforto com o Brasil no Brics e com qualquer menção a moeda alternativa ao dólar.
Trump reage com a Seção 301, dispositivo que dá ao presidente americano licença para usar barreiras comerciais como arma política. Mantidas as tarifas, perderemos algo em torno de US$ 15 bilhões em exportações para os Estados Unidos. É pouco no PIB, mas é muito para setores inteiros que vivem desse comércio. Precisarão de crédito, prazos e paciência para achar novos mercados.
O problema não é perder uma fatia de exportações. O problema é continuar viciado na dependência. Fertilizantes, semicondutores, serviços digitais, todos em mãos estrangeiras. O Brasil insiste em acreditar que crises se resolvem sozinhas. Não resolvem. Ou se investe pesado em produção nacional e diversificação de fornecedores, ou ficaremos eternamente reféns dos humores alheios e reclamando do mundo como se a culpa fosse sempre dos outros.