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Coluna Política

O Partido Somos Nós ou Sou Eu?

Ronaldo Nóbrega  -   8 de julho de 2025

A democracia, essa senhora elegante de tantas solenidades vazias, não se resume a apertar botões nas urnas. Ela exige um contrato civilizatório. Respeito às instituições, aos processos internos, às normas. E isso vale, sobretudo, para os partidos políticos. Essas agremiações que, no Brasil, vivem num perpétuo dilema entre serem casas de representação ou feudos de conveniência.

Choca. E é preciso usar o verbo certo. A declaração feita em rede nacional por um presidente de partido político, antecipando com pose de oráculo que sua legenda não estará coligada com o candidato Y. Motivo? O partido, segundo ele, já teria um pré-candidato à Presidência da República. A informação não espanta apenas pela presunção, mas pelo descaramento. A democracia interna foi reduzida a um item de rodapé nos estatutos. Um detalhe inconveniente para os que vêem-se não como mandatários temporários, mas como donos vitalícios do partido.

Qualquer dirigente minimamente decente, se instado, responderia com um mínimo de liturgia. Temos regras. Temos estatuto. Temos convenção. A pré-candidatura é direito de todos os filiados. A escolha será feita no tempo certo, com debate e voto. Mas não. Prefere-se o grito à regra. Prefere-se transformar divergência em deserção, como se o partido fosse um navio em alto-mar e quem discorda da rota do comandante devesse se jogar ao mar. Aqui já não é mais o Porto Seguro da Liberdade. É a gaiola de um cacique vaidoso.

E é nesse momento que convém lembrar o óbvio. O parágrafo primeiro do artigo 17 da Constituição assegura aos partidos políticos autonomia. E autonomia, por definição, é coletiva. É institucional. Não pertence ao presidente da vez, nem à sua entourage de bajuladores de diretório. Quando alguém fala em nome de todos, sem tê-los ouvido, não exerce autonomia. Comete abuso.

Nos países sérios, partidos escolhem seus candidatos com prévias, debates, disputas francas. No Brasil, muitos ainda preferem a velha lógica do coronelismo com gravata e rede social. Quando um nome surge por imposição, sem consulta, sem voto, sem respaldo, estamos diante de um simulacro de democracia. Uma encenação de legalidade num palco dominado por ambições pessoais.

Aos que tentam transformar partidos em cartórios com meia dúzia de procurações e a chave do cofre bem guardada, vale lembrar. A história pune os que sufocam o pluralismo. Não há projeto coletivo que resista à vaidade centralizadora de quem confunde comando com culto à personalidade. A democracia não é feita de declarações. É feita de instituições vivas, debate real e respeito aos rituais decisórios.

O contrário disso é regressão. É a volta ao curral eleitoral com estética de reunião de diretório. É o autoritarismo de paletó vendendo liderança enquanto entrega silêncio. E quem silencia a base trai a própria ideia de República.

Se ainda quisermos resgatar alguma conexão entre o cidadão e a vida pública, teremos que começar onde tudo apodreceu. Nos partidos. Reconstruir a confiança exige reabilitar os processos internos, dar voz aos filiados, respeitar as instâncias. Democracia não se improvisa. Democracia se constrói. Com legalidade. Com participação. E por mais antiquado que isso pareça. Com responsabilidade.

É por esse caminho, entre a escuta e a norma, entre o estatuto e a ética, que talvez ainda seja possível reencontrar o verdadeiro sentido de União e Progresso. Ou desistimos de vez e assumimos que aqui o progresso é só para alguns. E a união, um mero slogan para palanque.

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