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EXPRESSO

Zema paga dívida bilionária

Ronaldo Nóbrega  -   6 de julho de 2025

Em um raro gesto de responsabilidade fiscal dentro do cenário político brasileiro, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, autorizou o pagamento de R$ 473,1 milhões à União nesta terça-feira, 1º de julho. É mais uma parcela da dívida acumulada ao longo de décadas de má gestão. Ou como Zema descreveu com precisão, um rombo criado há 30 anos.

Os números por trás do pagamento são técnicos e reveladores. A maior parte, R$ 340,18 milhões, corresponde à décima parcela do contrato nº 336/2022/CAF. Outros R$ 132,92 milhões cobrem obrigações de crédito anteriores, distribuídas entre contratos firmados nos termos da Lei nº 9.496/97 e o novo contrato nº 272/2025/CAFIN. As parcelas são ajustadas anualmente em percentuais progressivos. Esse é exatamente o tipo de cláusula que puniria um estado despreparado para o rigor fiscal. Contudo, Zema vem enfrentando com previsibilidade.

É tentador, para muitos políticos, repetir o refrão de que os problemas financeiros do estado são culpa dos que vieram antes. Mas, diferentemente da maioria, o governador mineiro não parou na desculpa. Ele paga. Desde 2019, Minas Gerais já quitou R$ 10,7 bilhões, sem contrair um centavo adicional de dívida. Em 2025, foram R$ 2,86 bilhões em repasses, todos dentro do arcabouço do Regime de Recuperação Fiscal, o RRF.

“Governar com responsabilidade significa corrigir os erros do passado com trabalho no presente”, disse o vice-governador Mateus Simões. Essa frase, ao contrário de muitos slogans políticos, é sustentada por planilhas. Em tempos em que muitos líderes se especializam em terceirizar culpas e fabricar urgências, o governo mineiro optou pela disciplina. Uma escolha menos barulhenta, porém mais eficaz.

Desde agosto de 2022, Minas vinha pagando cerca de R$ 200 milhões mensais sob o contrato firmado com base na Lei Complementar nº 178/2021. Em 2024, o Supremo Tribunal Federal homologou a consolidação de contratos, permitindo a incorporação do contrato nº 283/2022/CAF ao atual modelo, o que criou um fluxo financeiro mais racional.

Não é possível saber se Zema mira um projeto nacional após o fim de seu mandato. Entretanto, se estiver, Zema parece ter entendido algo que muitos ainda ignoram. Credibilidade não se constrói com frases de efeito, todavia, com boletos pagos em dia.

E enquanto tantos falam em novo pacto federativo sem dizer o que isso significa, Minas Gerais vai mostrando que, às vezes, fazer o básico como cumprir contratos e controlar gastos já é um avanço civilizatório.