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Coluna Política

AbrasMercado mostra: O teatro cotidiano da inflação

  -   28 de junho de 2025

O AbrasMercado, esse barômetro emocional da cesta básica, veio a público com sua mais recente epifania estatística. Alta de 0,51% em maio. A cesta, esse relicário de sobrevivência da classe média baixa, subiu de R$ 819,20 para R$ 823,37. Variação modesta, diriam os burocratas de planilha. Mas, como todo espetáculo do varejo nacional, o que importa não é o número. É a coreografia de contradições.

O arroz, pobre arroz, caiu 4%. Feijão também teve seu momento de heroísmo, com retração de mais de 13% no ano. Óleo, leite e açúcar cederam discretamente. Mas basta um café, torrado e moído, claro, para devolver o drama: alta de 82,25% em 12 meses. O Brasil, país onde o café é símbolo nacional e, ao mesmo tempo, artigo de luxo.

Nas carnes, o desfile habitual. Dianteiro bovino em alta. Frango acompanhando. Traseiro bovino fazendo figuração. E os ovos, talvez em protesto, recuando quase 4%. Higiene pessoal? Alta no xampu, no creme dental e no sabonete. Tudo sobe, até o que não se come. Papel higiênico, ironicamente, caiu. Imagino a simbologia.

O hortifrúti é um caso à parte. O Velho Testamento da inflação. A batata e a cebola resolveram se vingar da população, subindo mais de 10%. O tomate, sempre temperamental, desabou quase 14%. Tudo conforme o ritual da economia brasileira, em que a sazonalidade é tratada como milagre ou castigo divino.

Regionalmente, o Sudeste lidera a alta. O Norte e o Nordeste seguem. O Centro-Oeste fica imóvel, como se tivesse abandonado a luta. O Sul, sempre elegante, recua 0,25%. Talvez por vergonha.

A tal cesta de 12 produtos básicos, que parece ter sido montada por um nutricionista dos anos 60, subiu 0,73% em maio. Destaque novamente para o café e a carne dianteira. A queda do arroz e do leite tenta, sem sucesso, equilibrar a equação.

As capitais fazem sua coreografia final. São Luís lidera com a cesta mais barata. São Paulo se aproxima dos R$ 372 como quem pede desculpas. Brasília continua cara e indiferente. Como sempre.

O que se conclui disso tudo? Que o Brasil continua sendo um país onde comer é um desafio logístico e metafísico. A inflação do tomate, o delírio do café e a tragédia da batata são apenas sintomas de um país que ainda trata a cesta básica como campo de batalha ideológica. Às vezes, como peça de ficção científica.