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Coluna Política

João Azevêdo: entre a tecnocracia vaidosa e o erro clássico de desprezar o voto

Ronaldo Nóbrega  -   1 de junho de 2025

João Azevêdo, governador da Paraíba, parece flertar perigosamente com um velho e recorrente erro de políticos que se julgam maiores do que a engrenagem que os sustenta: desprezar os aliados que detêm o ativo mais valioso da política — o voto.

Nos corredores do poder paraibano, cresce a percepção de que Azevêdo, em vez de exercitar a difícil arte de equilibrar técnica e política, optou por se cercar de auxiliares que dominam o jargão institucional, mas desconhecem a dinâmica eleitoral e, mais grave, operam como filtros entre o governador e sua base. Como se o exercício do governo pudesse prescindir da política — uma ilusão letal.

A cena recente que este colunista presenciou em João Pessoa, numa doceria. Beira a alegoria: lideranças conhecidas, com trajetória e capital político, tentavam se aproximar do governador. Tinham voto, voz e legitimidade. Mas o acesso lhes foi negado — não por hostilidade aberta, mas por aquele tipo de barreira invisível que só assessores vaidosos sabem erigir com eficácia. A frieza no ar era sintomática. A política, ali, havia sido substituída pela liturgia do isolamento.

O paralelo com ACM Neto, na Bahia, é inevitável. Cercado por uma coligação gigantesca, acreditou que cargos e articulações bastariam — e ignorou que política é, antes de tudo, relação, presença e reconhecimento. Pagou o preço nas urnas.

Não custa lembrar: o que se diz em Brasília, com a sabedoria cínica de quem sobrevive aos ciclos, é que “prefeito gosta de governo, não de governador.” E governo se faz com presença, escuta e reciprocidade — não com tecnocracia ornamental nem com o conforto das palmas internas.

Se Azevêdo não revê o rumo, corre o risco de tropeçar nos próprios pés. Porque, na política, a lealdade que não é cultivada, migra. E o silêncio dos votos desprezados costuma falar mais alto do que qualquer discurso de gratidão — especialmente para quem pretende disputar uma vaga no Senado em 2026, onde o apoio político não é apenas desejável, mas decisivo.

E que João Azevêdo não se engane: muitos que estiveram com ele nos governos I e II, mas não tiveram valorização política ativa, podem acabar se distanciando do seu projeto para 2026. Não basta nomear aliados para cargos no governo e deixá-los no banco de reservas. É preciso reconhecer, dar espaço e explorar o potencial de quem tem voto — e não permitir que a vaidade de assessores crie barreiras que enfraquecem o campo de apoio.