Num Brasil marcado por déficits crescentes, aumento de gastos permanentes e uma classe política cada vez mais confortável com o improviso orçamentário, a volta de Alvaro Dias ao plenário do Senado nesta quarta-feira (21.5) teve o peso de um gesto raro: um político veterano que retorna para lembrar o país de que responsabilidade fiscal ainda importa — e muito.
Na sessão solene que celebrou os 25 anos da Lei de Responsabilidade Fiscal, da qual foi relator, o ex-senador do Paraná trouxe à tona aquilo que muitos evitam encarar: a dívida pública brasileira se tornou não apenas um problema contábil, mas uma bomba social prestes a explodir. Já são mais de R$ 1 trilhão em juros pagos só neste ano. O estoque total da dívida ultrapassa os R$ 7,5 trilhões — 8,5% do PIB consumidos apenas para manter o Estado de pé.
Dias, que passou décadas defendendo equilíbrio, reformas e limites, usou a tribuna para pedir que o Senado reassuma seu papel histórico de guardião das contas públicas. “É preciso recolocar o país nos trilhos”, afirmou, propondo barreiras reais ao endividamento e à expansão desenfreada de gastos. Não se trata apenas de técnica econômica — é questão de responsabilidade com o futuro da República.
O momento mais simbólico de sua fala veio com a citação de um prefeito do interior do Paraná: "O consumo de antidepressivos disparou, e o número de separações conjugais aumentou. O motivo? Endividamento das famílias." Um diagnóstico direto, duro, mas que revela a face humana de uma crise muitas vezes tratada como mera planilha.
Faz falta Alvaro Dias no Congresso. E não apenas por sua experiência legislativa, mas por representar uma classe política cada vez mais escassa: aquela que entende o gasto público como compromisso moral com as próximas gerações — e não como instrumento de conveniência eleitoral.
Enquanto muitos celebram a flexibilidade fiscal e o afrouxamento das metas, a fala de Alvaro foi um freio de lucidez. Como ele mesmo lembrou, é hora de buscar a sabedoria dos antigos, como o Conselho dos Anciões da Grécia, para impedir que o Brasil siga cavando o próprio buraco com a pá do populismo fiscal.
Em tempos de narrativas fáceis, ouvir quem construiu parte da base técnica do Estado brasileiro é mais do que oportuno — é necessário.