Em uma decisão que escancara o abismo entre o discurso internacional e a realidade local, a Justiça Federal determinou nesta semana que a União passe a fornecer água potável de forma regular e urgente às comunidades indígenas do sudoeste do Pará — uma região sufocada pela seca, envenenada pelo mercúrio da mineração ilegal e esquecida pelo próprio Estado que a deveria proteger.
Ironia pungente: é no mesmo estado do Pará, palco desse descaso, que será realizada, em poucos meses, a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30). O anúncio foi feito com orgulho pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2023, exaltando Belém como símbolo da Amazônia viva, preparada — segundo ele — para sediar "a melhor COP da história".
Mas qual Amazônia será mostrada ao mundo? A das conferências com ar-condicionado, painéis sustentáveis e discursos vibrantes — ou a das aldeias em Itaituba, Jacareacanga e Trairão, onde crianças adoecem por beber água contaminada, onde o mercúrio destrói cérebros em desenvolvimento, e onde a sede é uma sentença de morte?
A decisão liminar da Justiça impõe ao governo federal a obrigação de distribuir água potável às comunidades indígenas, por meio de caminhões-pipa ou galões, até o dia 10 de cada mês — sob pena de multa. É uma medida de emergência, sim, mas também uma denúncia pública: o Estado negligenciou sistematicamente seu dever de garantir o básico. Água. Vida.
Enquanto autoridades se preparam para discursos sobre justiça climática em Belém, o MPF revela que o orçamento do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) do Tapajós foi mutilado — uma queda de 87% no investimento per capita entre 2014 e 2024. É esse o Pará “preparado” para receber o mundo?
Não há conferência climática que se sustente sobre a lama do abandono. A seca, a poluição e o desmonte das políticas públicas são hoje as marcas da Amazônia real. Que COP se fará em Belém, enquanto indígenas em Sawré Aboy têm 87% de mercúrio nos cabelos e bebês apresentam sinais de contaminação neurológica irreversível?
A COP30 será histórica, sim — se for capaz de olhar para além das vitrines e reconhecer que, no coração da floresta, há povos clamando não por eventos, mas por socorro.