Num país onde a democracia ainda busca se afirmar como prática cotidiana — e não apenas discurso de ocasião —, chega à nossa redação uma informação que envergonha e alarma. Diversos veículos de comunicação, especialmente do Norte e do Nordeste, estão sendo impedidos de renovar seus credenciamentos junto à Câmara dos Deputados. A alegação oficial? Que essas publicações não teriam “abrangência nacional” por ostentarem em seus nomes referências a estados ou municípios.
Mas o que está por trás desse argumento técnico soa como algo muito mais grave: a tentativa de deslegitimar o jornalismo regional, tratá-lo como inferior, invisível ou insuficiente. Um critério anacrônico, que despreza a revolução digital e a capacidade que essas vozes têm de ecoar em todos os cantos do Brasil. Não se trata apenas de burocracia — trata-se de silenciamento.
Enquanto isso, veículos com nomes associados ao eixo Sul-Sudeste, como “São Paulo”, continuam com acesso irrestrito, sem que lhes seja exigida qualquer comprovação adicional. A seletividade salta aos olhos. O que se assiste é a institucionalização de um filtro político-geográfico disfarçado de regra técnica. Um movimento sutil — mas devastador — de exclusão seletiva que, ao invés de unir o Brasil informativo, o fragmenta ainda mais.
Restringir o acesso à cobertura da Câmara dos Deputados com base na nomenclatura dos veículos é mais do que um erro: é um gesto simbólico de desprezo à pluralidade. Em um país continental, onde veículos regionais são, muitas vezes, os únicos a fiscalizar o poder e representar populações invisibilizadas, negar-lhes o direito à presença institucional equivale a negar sua própria existência.
Esse episódio não é novo — é a continuidade de uma história mal resolvida. Desde os tempos sombrios da ditadura civil-militar, quando concessões públicas de rádio e TV foram entregues a grupos alinhados ao poder, o Brasil vive sob o domínio de poucos sobre os muitos. Ao longo das décadas, movimentos sociais, sindicatos, jornalistas independentes e organizações civis têm batalhado por um sistema de comunicação verdadeiramente democrático, que respeite a diversidade cultural, territorial e política do país.
Durante o governo Lula I, mais de 70 conferências nacionais deram espaço ao debate sobre democratização da mídia. Vozes historicamente silenciadas puderam, enfim, ser ouvidas. Mas o avanço foi duramente enfrentado pela resistência de setores empresariais e políticos que, amparados pelos grandes conglomerados, ainda veem a comunicação como patrimônio privado — e não como direito coletivo.
O que se passa hoje na Câmara dos Deputados é um reflexo direto desse impasse histórico. Um Parlamento que deveria ser a casa de todos os brasileiros se revela incapaz de garantir o direito à representação informativa das regiões que mais precisam ser ouvidas. Em vez de ampliar espaços, fecha portas. Em vez de corrigir desigualdades, perpetua privilégios. E, ao fazer isso, caminha não apenas na contramão da história, mas contra a própria Constituição Federal, que proíbe o monopólio dos meios de comunicação e consagra a liberdade de expressão.
A exclusão de veículos não hegemônicos da cobertura política institucional não é um detalhe administrativo: é uma ferida aberta na democracia representativa. É calar o Brasil profundo dentro do próprio coração do poder.
Ouvido em caráter reservado, um ministro de corte superior de Justiça foi enfático:
“Essa exclusão não é apenas injusta — é inconstitucional. Liberdade de imprensa não se mede pelo CEP do veículo. O direito à informação é universal, e a pluralidade de vozes é cláusula pétrea de qualquer democracia viva.”
Fica, portanto, o alerta ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta Wanderley da Nóbrega — neto da terra de Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, o lendário Chatô, nascido em Umbuzeiro/PB — e ao primeiro-secretário da Casa, deputado Carlos Veras (PT-PE), oriundo de um estado que abriga o jornal mais antigo em circulação contínua da América Latina, prestes a completar 200 anos. Cabe a ambos impedir que a diversidade regional seja apagada em pleno Parlamento — até porque cada cadeira ali ocupada existe, antes de tudo, para dar voz ao Brasil real.
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