Fenômeno Jair Bolsonaro - por Júnior Gurgel

Coluna Política reproduz texto do  Jornalista e Memorialista Júnior Gurgel.

Confira:

"Enquanto a classe política “sangra”, sob os efeitos devastadores da pesada artilharia disparada através da mídia e setores das redes sociais – sem lhes dar chances de respirar por um minuto sequer – um movimento começa a crescer sorrateiramente, apontando para um “guia” ou “salvador da pátria”, o deputado federal Jair Bolsonaro.

A grande mídia o ignora completamente - fato que atesta o erro de seus veículos de comunicações e sua queda, vertiginosa e constante no poder de influência sobre a sociedade - quando seus formadores de opinião insistem na dicotomia PT/PSDB, como única alternativa para revezamento do poder. Demais legendas, “eclipsam” em seu redor. É nesses interregnos, quando o bipartidarismo cansa, que surgem lideranças ousadas, capazes de criarem paixões, arrastarem multidões e fecharem ciclos da história.

Na quinta-feira, 08.06.2017, o Senador Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN) tomou seu voo de rotina Brasília/Natal, ao lado da deputada federal Zenaide Maia. Observaram que também estava a bordo o deputado federal Jair Bolsonaro. Quando aterrissaram em Natal - no novo aeroporto que se localiza na cidade de São Gonçalo do Amarante (área metropolitana) distante 54 km da capital, tiveram um choque no que viram. O novo aeroporto que só vai lá quem tem negócios – embarcar, ou pegar alguém no desembarque - estava lotado até no estacionamento, com cerca de 10 mil pessoas. Todos esperando Jair Bolsonaro. Desprevenida com a reação popular, a deputada – esposa do prefeito que lutou e construiu o novo aeroporto (Jaime Calado), campeã dos votos válidos para a Câmara dos Deputados em 2014 no município com o discurso do novo aeroporto, jamais imaginaria ser alvo de uma estrondosa vaia, gritos e palavras de ordem contra a corrupção.

Mais cauteloso e confiante, o senador Garibaldi esperou acabar o alvoroço direcionado a Zenaide. Já governou o Rio Grande do Norte por duas vezes, nunca recebeu apupos em multidões, foi prefeito de Natal, senador já pela terceira vez e político mais influente nas eleições municipais de São Gonçalo – onde foi construído o aeroporto - saiu apressado, enquanto Bolsonaro era carregado nos braços do povo. Mas, alguém o percebeu, e logo uma vaia estrondosa o atingiu. Para quem conhece a política potiguar, este fato é inacreditável. Logo Garibaldi? Que sempre foi comparado (politicamente) a São Francisco de Assis, e dizem que foi feito de “teflon” (impermeabilizante), que nada “pega” nele. Desta vez, (primeira) pegou e “grudou”. Episódios como este de manifestação espontânea pró Bolsonaro acontecem todos os dias.

O que ora estamos testemunhando é tão extraordinário quanto ao fenômeno de “vaca enjeitar (rejeitar) bezerro” - adágio popular da zona rural do semiárido - quando se refere a uma mudança radical de comportamento rude inexplicável e inesperada.

O fato não teve nenhum registro na mídia tradicional do Estado, nem do país. As principais revistas semanais (Veja, Época; Isto É) se recusam noticiar a popularidade crescente e “assombrosa” de Bolsonaro. E, o que deixou todos perplexos, foi como tantas pessoas se dirigiram para um local distante esmo e deserto, numa tarde de quinta-feira - dia de “batente” - sem militância (empregos provisórios e cargos comissionados) ou o tradicional método do PT, pão com mortadela e a “oncinha” (nota de cinquenta reais). Como se mobilizaram? Os blogueiros noticiaram e espalharam vídeos pelas redes (grupos de whatsapp). Usaram o twitter e fizeram o seu carnaval. Mas, a dor de cabeça do senador e da deputada será como, doravante, irão fazer seus comícios (2018). Com que apelo? E a qual o público, ou a quem devem se dirigir? Atualmente só tem um candidato a Presidente que aonde chega faz sua festa: Jair Bolsonaro. Ninguém sabe se sobreviverá até 2018, ou se continuará se agigantando no percurso.

As delações de Marcelo Odebrecht e seu cartel, seguida da bomba de hidrogênio “Joesley Batista”, deixaram todos os partidos políticos e seus representantes no mesmo patamar. Joesley Batista comprova através de documentos que em 2014 comprou apoio de 28 das 36 legendas com registro no TSE. Restaram oito nanicos, talvez alguns já com registros precários, como o PAN – Partido dos Aposentados da Nação ou o PMN que elegeu Collor de Melo (1989).

Numa entrevista recente, exibida ao vivo no seu programa “Diálogos”, o jornalista Mario Sergio Conti ficou boquiaberto com o professor da USP Pablo Ortellado, pesquisador sobre opinião pública, internet e redes sociais. Em seu depoimento, o Dr. Ortellado destacou que o principal veículo e o mais abrangente das redes sociais é o Facebook. Muito à frente da audiência de todas as redes de TV no Brasil, usado maciçamente pela faixa etária que compreende dos 16 aos 35 anos.

Estes internautas sabem de tudo que está acontecendo na lava-jato, e nas dezenas de operações realizadas pelo MPF e Polícia Federal. Fingem desconhecer os congressistas, silenciam sobre o que está acontecendo com o País e deixaram de postar fotos ao lado de políticos: pagam mico. Por outro lado, as poucas postagens que aparecem no Facebook com Lula, Temer; Aécio, FHC não chega a dois dígitos de “curtidas”, com um ou dois comentários no máximo. São pessoas acima dos 40 anos. Ainda para o Dr. Ortellado, que vem acompanhando este novo “movimento da sociedade”, nas manifestações sobre o impeachment de Dilma e agora Temer, este imenso contingente esteve ausente.

O perfil dos manifestantes de 2015, 2016 e os atuais, é composto pelos quarentões e cinquentões, além dos sindicatos e ONG. O “cabo de guerra” Lula e Temer/PSDB no Facebook é discutido por apenas 10 milhões de eleitores, de um total de 144.089.912. Percentual inferior a 10% do número de votantes, que deve aumentar ano que vem (2018). Mesmo assim, já se percebe a juventude – ainda de forma tímida – sobrepor o nome Bolsonaro em suas fotos do perfil. Talvez tenhamos um novo episódio Collor de Melo. Com uma diferença: sem herança de oligarquias. Collor era a renovação continuísta de seus avós. E o Parlamento? Provavelmente aconteça a maior renovação da história, provocada pela enorme abstenção. Pouquíssimos voltarão. Dinheiro? Além de difícil, candidatos temem cassação. O “bochicho” nos grotões é “receber e votar contra”. Raríssimos prefeitos transferirão votos. Sem caixas, inertes, estão desgastados pela constante e ininterrupta queda de receitas impedindo-os de executarem seus orçamentos.

Júnior Gurgel – É jornalista, radialista e memorialista. Colabora com diversos veículos de imprensa, inclusive com a imprensa alternativa."