“Querem tirar Cássio Cunha Lima da vida pública”, diz artigo de Júnior Gurgel

O Jornalista e Memorialista político - Júnior Gurgel, alerta o Senador Cássio Cunha Lima(foto) sobre manobras políticas de seus correligionários, que estão colocando-o numa "sinuca de bico". Querem que o líder "tucano", campinense, mude de posição e discurso para atender projetos políticos e individuais de seus liderados. Júnior Gurgel identifica o movimento como "motim", e considera que uma atitude partidária deva ser tomada em nome da sobrevivência do grupo.

"SINUCA DE BICO

O ex-governador da Paraíba Ronaldo Cunha Lima, maior mito da história política paraibana do século XX - invicto em todos os pleitos populares que disputou de Vereador a Senador da República - nunca escondeu sua preferência por aquele que seria seu sucessor.  Com bastante antecipação, auge de sua popularidade, elegeu seu filho, Cássio Rodrigues da Cunha Lima(PSDB), Deputado Federal Constituinte (1986). Dois anos depois, o “imberbe” parlamentar foi sufragado majoritariamente pelas urnas, como o mais jovem Prefeito de Campina Grande (apenas 25 anos) desde a emancipação política (1864).

O legado do sucessor custa bem mais caro, que o preço pago pelo conquistador (seu antecessor). Cássio Rodrigues da Cunha Lima renunciou sua juventude, abdicou de uma carreira profissional onde pudesse se realizar vocacionalmente; envelheceu precocemente para ser compreendido por uma geração mais antiga, que compunha o exército Ronaldista; perdeu sua privacidade; moldou-se no perfil que seus seguidores o esculpiram, sem direito de escolha; enfrentou a ciumeira doméstica e familiar; tinha a obrigação de não errar, mostrar competência em acertar sempre nos eventuais equívocos cometidos pelo seu antecessor; manter um estilo sempre ascendente e vitorioso; não perder aliados; vencer obrigatoriamente todos os combates de uma guerra sem fim, sustentando a hegemonia do poder “Cunha Lima”, sobre seus adversários ou inimigos que surgiam a cada dois anos (eleições municipais intercaladas entre as eleições gerais).

Ronaldo da Cunha Lima se notabilizou pela coragem, usando o dom carismático da palavra, criando paixões nos seus admiradores, através de um forte poder de persuasão – em ampliação permanente – arrastando multidões. Seu sucessor, Cássio Rodrigues da Cunha Lima optou por “ousadia e determinação”, armas para enfrentar dificuldades e superá-las, por mais difícil que fossem as circunstâncias ocasionais.

Após a derrota imposta por José Maranhão nas convenções do PMDB (1988), o Clã Cunha Lima sofreu um abalo imensurável em seus alicerces. Queimou uma eleição estadual e José Maranhão obteve mais de 80% dos votos válidos, sendo considerado o Governador campeão de votos no país. Em seguida, um AVC vitimou o poeta Ronaldo (maio de 1999), num dos momentos mais cruciantes da segunda gestão de Cássio Cunha Lima como Prefeito de Campina Grande, candidato a reeleição no ano seguinte (2000). Ronaldo imobilizado, Maranhão avançando sobre os redutos Cunha Lima através da “máquina”, deserções de algumas patentes expressivas... Cássio já estava efetivado como Supremo Comandante das tropas peessedebistas. Teve que se agigantar para segurar o grupo, em processo de esfacelamento. E, num ato ousado – cujos detalhes nunca foram revelados – “desmontou” a principal postulação que lhes fazia oposição com vistas às eleições de 2000 (Cozete Barbosa PT-PB) que compôs sua chapa como vice. Obteve 87% dos votos válidos em Campina Grande, algo inimaginável e surpreendente para os que apostavam no declínio do Clã. Após sua posse (janeiro de 2001) pôs o pé na estrada e percorreu toda a Paraíba por três vezes, até outubro de 2002, pregando sua candidatura ao Governo do Estado. Mais uma vez a ousadia foi parturiente do sucesso. Conseguiu o apoio do Prefeito de João Pessoa Cícero Lucena e a maioria esmagadora do PT que votou no odiado PSDB de Cássio. Para “fechar” a chapa majoritária, abraçou inimigos que os consideravam imperdoáveis: Wilson Braga e Efraim Morais. A grande surpresa e o medo do “tucano” foi um segundo turno, não previsto. Maranhão já eleito Senador, entrou de cabeça com o poder da máquina, desmobilizou Wilson Braga e outras lideranças, equilibrando a campanha cujo resultado foi bastante apertado, pouco mais que 50 mil votos.

A vitória de 2002, sem a imprescindível participação do poeta Ronaldo Cunha Lima (convalescente de um AVC) justificou finalmente os motivos que o levaram a escolher Cássio como o seu sucessor. Seus dois primeiros anos a frente dos destinos da Paraíba, foram repletos de dificuldades. Tinha um Presidente da República adversário (Lula), que o assediava diuturnamente para se filiar ao PT. Mas, resistiu ao “canto da sereia” e com o “estouro” do mensalão, sepultou em definitivo esta hipótese.

Reelegeu-se Governador em 2006, enfrentando José Maranhão que comandando o PMDB (2004) havia derrotado o PSDB de Cássio nos principais colégios eleitorais do estado, a partir de Campina Grande. Cabedelo, João Pessoa; Guarabira; Santa Rita; Bayeux; Patos; Pombal; Sousa... Cajazeiras foi uma eleição suprapartidária. Não reconhecendo a derrota, o Senador José Maranhão procurou o “tapetão”: TRE e TSE e arrancou o mandato do “tucano”.

Fora da vida pública, os inimigos de sempre imaginaram ser impossível para o “tucano” herdeiro do poeta, retornar as atividades políticas. Enganaram-se... Foi a mais fácil de todas as disputas que Cássio enfrentou (2010). As urnas lhes conferiram 1,004 milhões de votos para o Senado Federal, mandato que só assumiu um ano depois. Mas, em 2014, foi “empurrado” para enfrentar Ricardo Coutinho, pleito que resultou na sua primeira derrota. Os mesmos “personagens” que o empurraram em 2014, estão tentando encurralá-lo agora, instante em que vive o seu melhor momento político. São seus inimigos? Claro que não! São seus amigos, suas próprias “crias”. “Sinuca de bico”... Montar uma chapa “tucana”, para enfrentar o PMDB, legenda com quem o PSDB é oficialmente “casado” desde o impeachment da Presidente Dilma.  Por conta destas suas “crias”, Cássio tem amargado uma ruptura familiar, deixando o Clã sem identidade própria. Já não existe mais as reuniões conciliatórias na mesa de jantar, ocupando Ronaldo uma das cabeceiras e Ivandro a outra. O motim do PSDB é um movimento para enfraquecer Cássio, ou tirá-lo da vida pública. Se lançar Romero Rodrigues para o Governo do Estado, Cássio terá como fortes concorrentes para o Senado: Ricardo Coutinho, Luciano Cartaxo ou Manoel Júnior; Raimundo Lira; Aguinaldo Ribeiro; Veneziano Vital do Rêgo... O “socialista” se comporá com José Maranhão, lançando-o ao Governo do Estado, para deixar Cássio Cunha Lima sem mandato. Seus fiéis “amigos” querem deixá-lo sem discurso, como em 2014? O que Cássio dirá contra o PMDB, governo que serve no Senado da República? Vai novamente assumir a “pecha” de traidor, como em 2014? Para o líder e sucessor do poeta, resta a ousadia: uma “mão de rédeas” nos amotinados, mostrando que o barco ainda tem comando, e seu sobrenome é Cunha Lima. 

Júnior Gurgel – É jornalista, radialista e memorialista. Colabora com diversos veículos de imprensa, inclusive com a imprensa alternativa."