Em Artigo, Jornalista Júnior Gurgel lembra os 34 anos de espera da transposição do São Francisco

Coluna Política reproduz texto do jornalista Júnior Gurgel.

Confira:

Transposição: 34 anos de espera

As águas do “velho Chico” chegaram a Monteiro (PB) 08.03.2017 às 18hs. Dentro de mais trinta dias estarão elevando a quota do reservatório da cidade de Boqueirão (açude Epitácio Pessoa), ora sugando o seu volume morto para abastecer Campina Grande e municípios do seu entorno, abrangendo a uma população superior a meio milhão de habitantes.

Mencionamos trinta e quatro anos porque vimos o “nascedouro” do ambicioso projeto (1984), quando o então Ministro do Interior do Governo João Batista Figueiredo, Mário Andreazza - pré-candidato à Presidência da República - abraçou a ideia de construir um canal de transposição, ligando as Bacias Hidrográficas do Rio Tocantins ao São Francisco (cerca de 400 km), e a partir do “velho Chico” trazer água para o interior de Pernambuco, Paraíba; Rio Grande do Norte e Ceará, que agonizavam na época, um período de quatro anos ininterruptos de seca.

À frente da “empreitada” estava o então Superintendente da SUDENE, Walfrido Salmito Filho, que contava com apoio dos governadores da Bahia (João Durval); Sergipe (João Alves); Alagoas (Divaldo Suruagy); Pernambuco (Roberto Magalhães); Paraíba (Wilson Braga); Rio Grande do Norte (José Agripino Maia) e Ceará (Gonzaga Mota –Totó).

A Secretaria de Recursos Hídricos da Paraíba, criada em 1983 – pioneira no Nordeste – era comandada pelo então Secretário José Silvino Sobrinho, que vinha executando o Projeto Canaã, cujo objetivo era a perenização dos rios através da construção de grandes barragens, proporcionando a irrigação; eletrificação rural; piscicultura e abastecimento d’água para povoados e pequenas populações rurais isoladas. Na perspectiva da transposição, José Silvino montou uma “usina” de confecção de projetos, e adequou o Canaã para utilizar as águas do São Francisco como solução definitiva para o problema de abastecimento da Paraíba. Todos os projetos elaborados nesta época foram aproveitados nas gestões de Ronaldo C. Lima, Cássio e José Maranhão.  

No ano de 1984 aconteceram as primeiras reuniões na SUDENE, onde foi discutida a complexidade da transposição e se deu início aos seus estudos e projetos. Quem garantia sua execução era o homem que construiu a ponte Rio/Niterói, pré-candidato a Presidente da República, trazendo o melhor dos discursos para o Nordeste: fim das secas.

Em um ano, Paulo Maluf mudou o destino do projeto, do País e de Andreazza. Nas convenções do PDS derrotou-o, provocando uma revoada dos “pedessistas” para o PFL, que elegeu Tancredo Neves e José Sarney (1985). Como os governadores eram os mesmos que apoiariam Andreazza, e a maioria ficou ao lado de Sarney, houve avanço significativo: criaram o Ministério da Irrigação, e seu titular Vicente Fialho ainda chegou a negociar os recursos junto ao Banco Mundial. Mas, veio a falência do Plano Cruzado e maior dos atos impensados do Presidente José Sarney, que decretou moratória aos devedores externos, sepultando com este gesto o projeto de transposição das bacias e das águas do São Francisco.

Collor de Melo sucedeu Sarney, mas desconheceu completamente o sonho nordestino da transposição. Com seu impeachment, assumiu Itamar Franco, que na busca de apoios acatou a indicação do então senador Ronaldo Cunha Lima, nomeando o ex-senador Cícero Lucena para ocupar a Secretaria Especial de Políticas Regionais, vinculada ao Ministério do Planejamento e Presidência da República. O “tucano” tirou o empoeirado projeto da transposição da prateleira e começou a se mobilizar para tocá-lo. Momento do discurso do então Deputado Federal Cássio Cunha Lima, destacado na mídia paraibana esta semana.

Contudo, um passo impensado do poeta tirou de cena Cícero: defendeu uma postulação própria do PMDB, contra o candidato de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso. Cícero Lucena foi substituído pelo ex-governador do Rio Grande do Norte, Aluízio Alves. Bastaram seis meses, e o projeto – mais modesto - estava concluído. Cortaram a transposição das águas do Tocantins para o São Francisco, o que gerou revolta na Bahia, Sergipe e Alagoas. Era fim de governo... Assumiu FHC. No seu primeiro mandato, concordou com os argumentos de ACM (BA), que ao lado de Sergipe e Alagoas boicotaram a transposição apenas das águas do São Francisco. Exigiam a transposição das bacias.

No seu último ano de mandato, FHC nomeou Ney Suassuna Ministro da Integração Nacional. Entrevistado pela revista Veja, Ney adiantou que a prioridade de seu Ministério seria construir um pórtico de entrada e saída em todas as cidades brasileiras. Suas declarações foram motivos de gozação na grande mídia nacional. Em conversa com seu maior amigo, saudoso Toinho Cabral, sugerimos ele retomar o projeto da transposição. Pelo menos das águas. Toinho provocou um encontro entre Ney Suassuna e o ex-secretário José Silvino Sobrinho (Projeto Canaã), que lhe passou estudos, viabilidades e a inclusão do eixo leste (Monteiro PB), para resolver o problema de abastecimento de Campina Grande. O discurso de posse do Senador no Ministério da Integração Nacional foi a transposição das águas do São Francisco.

Ney Suassuna avançou. Fez licitações dos primeiros trechos e iniciou as obras físicas da estação de captação das águas. Mais uma vez veio a paralisação, com sua saída do Ministério. Neste momento entra o Deputado Federal Marcondes Gadelha com o movimento “grito das águas”, precedido de outro “grito da seca” que já tinha sido realizado pelo ex-ministro Aluízio Alves.

Com a nomeação de Geddel Vieira Lima (2007) e sob o comando do vice-presidente José de Alencar, em três anos foi locado 4,5 bilhões de reais para execução das obras que compreendia 662 km de canais (eixos leste e norte), oito túneis; vinte e sete aquedutos; 4,5 km de adutoras; nove estações de bombeamentos e trinta e cinco reservatórios. Geddel deixou o Ministério em 2010, com o fim do mandato Lula da Silva, e cerca de 60% das obras concluídas. O discurso de sua sucessora, ex-presidente Dilma Rousseff, era a conclusão da transposição até o ano de 2012. Prometeu inaugurar em 2014, o que também não aconteceu. Reeleita, as obras foram retomadas mesmo em meio à crise política que a levou ao impeachment. O clamor de outro período de seca prolongada motivou seu sucessor Michel Temer concluir a transposição das águas do São Francisco, eixo leste, contando inclusive com o apoio do Governo de São Paulo, que cedeu seu complexo de captação flutuante do sistema Cantareira, usado na seca paulista de 2015.

Registro histórico para a posteridade.

Júnior Gurgel (foto) – É jornalista, radialista e memorialista. Colabora com diversos veículos de imprensa, inclusive com a imprensa alternativa."