Artigo de Júnior Gurgel relata cenário da política Paraibana

Por meio de mais um artigo enviado ao site Coluna Política, o jornalista, Júnior Gurgel, relata o cenário da política Paraibana.

FENÔMENO SORTE (PARTE II) - O jornalista Gurgel lembra que o governador Ricardo Coutinho (PSB) - nomeou para o primeiro escalão do seu governo, dez Secretários indicados pelo senador, Cássio Cunha Lima (PSDB/PB), gesto que fez cair algumas “pétalas” do “girassol”(...)  

Confira: 

FENÔMENO SORTE* (PARTE I) 

FENÔMENO SORTE (PARTE II)

"por Júnior Gurgel 

FENÔMENO SORTE* (PARTE I) 

A “sorte do principiante” é uma das teses do escritor Paulo Coelho que aposta (e se revela como prova viva), sobre a força da fé e obstinação, que resultam na conjunção “mágica” que move o universo, e este conspira em prol de realizações triunfantes. Os mais céticos acreditam que “sorte” é o encontro da oportunidade com a competência. 

Governador Ricardo Coutinho vem “surfando” numa onda gigante de “sorte oportuna” desde o grande desafio enfrentado no pleito municipal de 2004, quando derrotou (em primeiro turno) a ampla estrutura tucana instalada na Capital Paraibana. Surpreendeu a classe política, sobrepujando Cícero Lucena (Prefeito com uma gestão festejada durante oito anos) e o ex-governador Cássio Cunha Lima, no comando do destino do povo paraibano. Sorte? Sim, a sorte “principiante” do “Mago”, talvez tenha sido Avenzoar Arruda, queimá-lo dentro do PT, e a suplente de deputada estadual Nadja Palitot ter lhes filiado no PSB – sigla que foi arrancada das mãos do ex-deputado Gilvan Freire - sob seu comando há mais de uma década e que pretendia se aliar aos tucanos. O universo “conspirou” em favor de Ricardo Coutinho, através do seu poder de persuasão, convencendo o ex-governador José Maranhão a desistir de uma candidatura partidária, Manoel Júnior (PMDB) compondo o “espaço” como vice do PSB.

Maranhão, estimado na época como “governador em férias” (2004), investiu no “Mago” para tê-lo como aliado (2006), e abater seu arqui-inimigo - inquilino que o sucedeu no Palácio da Redenção - Cássio Cunha Lima, cuja gestão claudicava, e não vinha sendo bem avaliada pela população. A reeleição do “Mago” (2008) foi um passeio.

Presidindo a comissão do OGU (Orçamento Geral da União), Senador José Maranhão destinou cerca de 300 milhões de reais para obras de infraestrutura na Capital e região metropolitana de João Pessoa. A cidade se transformou num canteiro de obras. As pesquisas mostravam vitória de Ricardo (reeleição) em quaisquer quadros, ou circunstâncias. Dispensou a indicação de vice do PMDB e levou consigo seu amigo Campinense, saudoso Secretário Luciano Agra, desconhecido das lideranças políticas.

Ao assumir seu segundo mandato (2008) como Prefeito da Capital, Ricardo Coutinho foi surpreendido mais uma vez pela “sorte”. Quarenta e sete dias após sua posse 17.02.2009 o TSE cassou em definitivo o mandato do Governador Cássio Cunha Lima - que havia superado sua fase difícil da primeira gestão - tinha sido reeleito (2006) e estava em “lua de mel” com o eleitorado paraibano. Ricardo Coutinho entregou a gestão municipal ao seu vice Luciano Agra, e começou a se movimentar com vistas ao Palácio da Redenção. Não existe espaço vazio no mundo político. O PSDB não dispunha de nomes da estatura de Cássio Cunha Lima. 

O PMDB de José Maranhão assumiu o poder - cometendo o pior de todos os seus equívocos da vida pública – ao esquecer as “sandálias da humildade” e retaliar as lideranças que reelegeram Cássio. Orgulhoso pela conquista no “tapetão”, Maranhão desprezou as velhas raposas “dependentes” de poder. A orfandade desta gente aos poucos foi instrumentalizando Ricardo Coutinho como forte candidato de oposição no pleito do ano seguinte (2010). O sentimento de Campina Grande, traduzido no seu silêncio por ocasião da cassação do seu governador (Cássio) mostrava com clareza um revanchismo velado – até por parte dos seguidores do então Prefeito Veneziano Vital do Rêgo - aliado e partidário do PMDB de José Maranhão. Restava só “montarem” da chapa, composta com um sobrenome “Cunha Lima”. Mas, Cássio se recusava, por não perdoar o Advogado Marcelo Weick e o próprio Ricardo Coutinho, que o nomeou Procurador da PMJP, após a primeira cassação no TRE-PB. 

Entretanto, como sentenciou Getúlio Vargas “em política não existe amigos inseparáveis, nem inimigos irreconciliáveis”, a solução foi “escalar” o então Deputado Federal Rômulo Gouveia – escudeiro Cunha Lima – como vice da chapa de Ricardo Coutinho. Nem “empurrão” da Rede Globo divulgando uma pesquisa supostamente fraudulenta 72 horas antes do pleito, mostrando que José Maranhão era vitorioso com 22% das intenções de votos, fez com que o eleitorado consumasse sua vingança contra o TRE-PB e José Maranhão. Ricardo ao lado de Cássio impuseram uma maioria humilhante a José Maranhão: 149 mil votos.

*Registro, ou memória histórica.

FENÔMENO SORTE (PARTE II)

Relata a história, que Napoleão Bonaparte nos preparativos para iniciar uma campanha (guerra), recrutava novos Generais e a entrevista final – após aprovação do currículo - era realizada com o próprio Imperador. Indagava do futuro Comandante se ele tinha sorte, acreditava na sorte e relatasse um fato, onde a “sorte” o tinha ajudado. Caso não existisse um exemplo convincente sobre “sorte”, o candidato era dispensado.

Reconhecendo que foi “puxado” por Cássio Cunha Lima e seus hum milhão e quatro mil votos – eleito Senador e não assumindo de imediato – Ricardo Coutinho nomeou para o primeiro escalão do seu governo, dez Secretários indicados pelo líder tucano, gesto que fez cair algumas “pétalas” do “girassol”. Em seguida - pouco mais de um ano após sua posse - a “sorte” começou a dá sinais de cansaço... Cássio Cunha Lima via TSE/STF, conseguiu reformar a sentença de cassação do seu registro de candidatura (TRE-PB), e assumiu sua vaga no Senado Federal (2012). Romero Rodrigues esmagou o PMDB em Campina Grande, elegendo-se Prefeito - isolado e sem a participação de Ricardo Coutinho – nem na chapa, nem no seu palanque. Na Capital, o girassol “murchou”. Estelizabel amargou uma derrota contra Luciano Cartaxo (PMJP). O ano de 2013 se iniciou sob a premissa da volta de Cássio Cunha Lima ao Governo do Estado, considerado imbatível para o pleito de 2014. Ricardo Coutinho vivia seu inferno astral.

Ex-Senador Vital Filho (PMDB), homem “missão” do Governo Dilma e do PT no Congresso Nacional - coveiro da CPI de Carlinhos Cachoeira e Petrobras – ofereceu-se para assumir o palanque da Presidenta na Paraíba, ao lado de José Maranhão (Senado Federal). Cássio (PSDB) representava Aécio Neves. Ricardo Coutinho (PSB) cerrou fileira ao lado de Eduardo Campos. A candidatura de Vital Filho para o Governo do Estado encontrou forte resistência na legenda (PMDB). Deputados Federais Manoel Júnior e Hugo Mota declararam apoio a Cássio Cunha Lima, e tentaram convencer José Maranhão negar legenda ao Senador. O argumento se assentava na premissa que parte do eleitorado de Cássio, votaria em Maranhão (Senado), o que de fato aconteceu. Mas, o velho Cacique do PMDB “empurrou de barriga” a questão, e permitiu a postulação de Vital Filho, na expectativa de um eventual segundo turno. A “sorte” resolveu aparecer... Ressurgiu, e encontrou mais uma vez Ricardo Coutinho, nas esquinas da vida.

Sem dá motivos para rompimento com Cássio - evitando repetir o erro de Cozete Barbosa – o “socialista” manteve-se como recomenda a filosofia oriental: “inimigo não se pode ter muito próximo, nem tão distante”. Quando Cássio veio anunciar sua candidatura, o fez de forma acanhada, sem um estrondoso e empolgante discurso. Claudicou nas palavras, e não apresentou justificativas para contradizer as insistentes afirmações - durante três anos - que apoiaria Ricardo Coutinho na sua reeleição. Parte do Exército “tucano” já aquartelado no Palácio da Redenção, permaneceu por lá. Além de dezena de Prefeitos, o tio de Cássio, Renato Cunha Lima, encabeçava um motim ao lado dos Deputados Adriano Galdino, Ricardo Barbosa; Damião Feliciano... Até o vice Rômulo Gouveia abandonou Cássio. Engatou “marcha ré”, já próximo às convenções.

O TRE-PB considerou aptos para votarem (2014) 2.834.282 eleitores. No dia 03.10 (primeiro turno) compareceram as urnas 2.334.522. Mais de 600 mil votos não foram computados. Os eleitores não apareceram, anularam seus votos, ou optaram pelo “branco”. Sufrágios válidos: 2.142.040. Cássio caiu do patamar de 1.004.183 (2010) para 965.597. Ricardo praticamente manteve seu desempenho: 942.121(2010) e 937.009 (2014). Vital Filho foi votado por 106.162 e Major Fábio 14.910. O tão sonhado segundo turno, tábua de salvação de Ricardo Coutinho, aconteceu.

A decisão do pleito (2014) doravante ficou nas mãos do Senador José Maranhão, que após uma derrota na disputa de 2012 pela PMJP, aonde não chegou ao segundo turno, surpreendeu elegendo-se Senador. Ricardo Coutinho “montou” mais uma vez no “cavalo da sorte”... Como bom “Cristão”, Maranhão é dos que perdoam, mas não esquece. Ricardo já o tinha traído e derrotado por duas vezes. Mas, Cássio? Foram sete derrotas consecutivas. Primeiro e segundo turno de 2002, primeiro e segundo turno de 2006; primeiro e segundo turno de 2010 (apoiando Ricardo) e as eleições municipais de 2012 da Capital. Estava na hora de quebrar a invencibilidade do “tucano”. Vital Filho voou para Brasília depois do dia 03 de outubro, e José Maranhão - eleito Senador - abraçou a tarefa de decidir quem governaria a Paraíba. Conseguiu transferir integralmente toda a votação de Vital Filho, para Ricardo Coutinho.

Apurado o resultado do segundo turno, Cássio cresceu dos 965.597 para 1.014.393. Em relação a 2010, apenas 10 mil votos a mais. Ricardo se agigantou de 937.009 e alcançou 1.125.956. Todavia, caiu muito com relação a 2010, quando obteve 1.079.164. Quem cresceu também e para prejuízo de nossa democracia foi à abstenção: 500.260, nulos 184.323 e brancos 192.482.  O total de votos válidos 2.034.879 (fonte TRE-PB). Mais de 800 mil eleitores não quiseram “crivar” na urna eletrônica, o nome de Cássio Cunha Lima ou Ricardo Coutinho. Fato preocupante, e que deve ser levado em consideração pelos candidatos ao Governo do Estado em 2018.


O PSB da Paraíba sempre coube numa Kombi. Três eleições consecutivas, Ricardo Coutinho (como Prefeito e Governador) comandando a legenda, não conseguiu eleger um único Deputado Federal. Eleito e reeleito para o Palácio da Redenção, o “socialista” conta apenas com seis, dos trinta e seis Deputados Estaduais. Será que irá testar mais uma vez sua inesgotável “sorte”? Entregando o governo a Lígia Feliciano e disputando o Senado? Correria o risco de Ivan Bichara Sobreira (1978) e Wilson Braga (1986)? Ou repetira o gesto de Buriti (1982), elegendo-se Deputado Federal? Se Romero Rodrigues e Luciano Cartaxo não atrapalharem, Maranhão e Cássio voltarão a se juntar num mesmo palanque. Cássio retorna para o Senado, José Maranhão para o Governo, Luciano Cartaxo será puxado pelo “chapão”, que poderá ter Romero Rodrigues como vice. Mas, tem alguém do núcleo tucano boicotando o “acordão”, que culminará em mais uma sortuda (?) vitória de Ricardo Coutinho. Aguardemos.



Júnior Gurgel (foto) – É jornalista, radialista e memorialista. Colabora com diversos veículos de imprensa, inclusive com a imprensa alternativa."