Tragédia anunciada: Jornalista alerta que indústrias que dependem de água vão fechar suas portas em Campina Grande(PB)






Em pleno século XXI, onde se vive os sinais ou efeitos da quarta revolução industrial, mais de meio milhão de habitantes de uma cidade próspera, polo educacional, comercial e industrial está prestes a ser desertificada pelo mais elementar dos motivos: falta d’água”. - Jornalista Júnior Gurgel.

Coluna Política reproduz texto do jornalista, Júnior Gurgel:

Confira: 

VÉSPERAS DO CAOS – por Júnior Gurgel

            Qual será o destino de mais de meio milhão de habitantes (Campina Grande e seu entorno) a partir de Janeiro, quando definitivamente secar o reservatório de Boqueirão? A vida que segue - quotidiano das pessoas - não lhes permite perceberem que estão prestes a conviverem com a pior de todas as crises, que é a falta d’água para beber. Dificilmente o restante do volume morto do reservatório Epitácio Pessoa alcançara meados de Janeiro. De onde virá à água para o consumo humano? O animal, nem pensar. A população terá que ser removida? Para aonde? E a geração de renda oriunda da irrigação de hortifrutigranjeiros? Quem alimentará esta gente? O problema é bem maior que o imaginado. 

            Providências mínimas ainda não foram tomadas pelos governos municipal e estadual, como por exemplo, Decreto de Estado de Calamidade Pública e Emergência e seu reconhecimento pelo Governo Federal. O tema foi abordado durante todo o ano pela mídia paraibana. Em Campina Grande, somente o Vereador Lula Cabral(foto), Presidente da Comissão de Recursos Hídricos da Câmara Municipal tem enviado sinais de alerta aos Ministérios da área e Presidência da República. Para decepção de todos, Lula Cabral disse que mesmo diante desta ameaça – prestes a se consumar – nunca conseguiu reunir a comissão que preside para debater o tema (?). Descaso sem precedentes do Legislativo Mirim, que não larga o “osso” do “clientelismo”. Meu Deus! O quadro nos lembra da “Triste Partida”, música de Luis Gonzaga Rei do Baião: “setembro chegou...Outubro e novembro/ já estamos em dezembro meu deus o que é de nós...” Em pleno século XXI, onde se vive os sinais ou efeitos da quarta revolução industrial, mais de meio milhão de habitantes de uma cidade próspera, polo educacional, comercial e industrial está prestes a ser desertificada pelo mais elementar dos motivos: falta d’água.

            Debruçados sobre os mapas eleitorais do pleito de outubro ultimo (2016), na busca de fortalecerem suas bases, com vistas a um retorno confortável em 2018, trinta e seis Deputados Estaduais; doze Deputados Federais; três Senadores da República; Prefeito de Campina Grande - mais outros seis ou sete que dependem das águas de Boqueirão - esqueceram até de clamar pelo Governo do Estado para encabeçar um movimento, que evitasse o flagelo que se avizinha. Quanta maldade tem feito nosso modelo democrático, ao povo que elege seus representantes...

            No ano de 1993, Fortaleza (CE) se viu ameaçada pela falta de abastecimento d’água, como está hoje Campina Grande. Na época sua população era do tamanho da Rainha da Borborema e seu entorno: 600 mil habitantes. O Governador do Estado era um jovem, com pouco mais de trinta anos: Ciro Gomes. Decretou Estado de Emergência e direcionou todos os recursos disponíveis do Estado para o “canal da salvação”, com um prazo de 100 dias, para a água do Vale do Jaguaribe – captada a distancia de 280 quilômetros - chegarem às torneiras da Capital. Mobilizou toda a classe política, e “arrancaram” recursos da reserva disponível em orçamento do Governo Federal, destinadas especificamente para casos de Estado de “Calamidade Pública”. Criou uma “frente de emergência”, gerando milhares de empregos, e a obra teve sua licitação dispensada, como acata a lei, e foi executada por Administração Direta. Ciro Gomes e sua “vontade política” não pararam por ai. Pediu socorro a Embaixada dos Estados Unidos, e conseguiu trazer a maioria da tubulação, bombas e técnicos que instalaram na Arábia Saudita em 90 dias, uma adutora para abastecer o contingente das tropas americanas, mobilizadas para guerra contra o Iraque (gestão do Presidente George Bush pai), cujo objetivo era expulsar as tropas de Sadan Hussein que haviam ocupado o pequeno e desarmado Kuwait.

            Campina Grande hoje dispõe de dois importantes Senadores da República. O líder do PSDB e o Presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal. Cinco dos doze Deputados Federais completaram os votos de suas eleições ou reeleições na Capital do Trabalho. Um Governador que deve sua eleição e também reeleição a confiança dos Campinenses. Um Prefeito reeleito com uma maioria esmagadora (até humilhante) sobre seu principal adversário, que é do PMDB do Presidente Michel Temer, e posicionou nossa cidade num dos principais redutos “tucano” do nordeste. Toda essa gente está cega, ou não tem força política para salvar a cidade do caos? O que falta para se reunirem e discutir uma solução para 100 dias? Qual o plano “B”, caso as chuvas previstas não aconteçam, e as águas da transposição não cheguem no tempo oportuno? A partir de Janeiro, as indústrias que dependem de água, vão fechar suas portas. Férias coletivas, ou demissão em massa. Seca, desemprego e crise econômica nacional transformarão a Capital do Trabalho, no gueto da fome e miséria disseminada. 


Júnior Gurgel(foto) – É jornalista, radialista e memorialista. Colabora com diversos veículos de imprensa, inclusive com a imprensa alternativa.